A agricultura biológica está cada vez mais na mesa dos portugueses, fruto de um foco das famílias numa alimentação mais saudável. Prova disso são os mercados biológicos, que começam a aparecer um pouco por todo o país.

Os mercados biológicos de rua chegaram para ficar. Ali, vendem-se sobretudo frutas e legumes, mas também ervas aromáticas, azeite, pão, ovos, doces e compotas, frutos secos, óleos essenciais e águas florais, infusões, flores comestíveis… E tudo devidamente certificado.

O primeiro mercado biológico de Lisboa nasceu no Jardim do Príncipe Real, em 2003, numa iniciativa da Associação Portuguesa de Agricultura Biológica (Agrobio). A ideia era, por um lado, proporcionar aos pequenos produtores de agricultura biológica um local para venderem os seus produtos, e, por outro, facilitar aos consumidores o acesso a estes bens, preferencialmente frutas e legumes. A venda direta, de periodicidade semanal e numa lógica de proximidade acabou por se revelar a melhor solução.

“Os mercados que existiam por todo o país estavam a ficar desertificados, sem clientes, mas o número de pequenos agricultores estava a aumentar”, recorda Jaime Ferreira, presidente da Agrobio. Depois, prossegue, “fomos ver onde andavam os clientes aos fins de semana e achámos que o jardim seria um bom local para juntar produtores e consumidores”. A ideia acabou por vingar e estender-se a outros pontos da cidade. Hoje, a Agrobio gere 13 mercados no distrito de Lisboa (o maior é o do Campo Pequeno, com 11 produtores, e o do Príncipe Real passou, entretanto, para a Junta de Freguesia da Misericórdia) e um em Portimão, todos eles sujeitos a protocolos camarários e a normas rigorosas.  “Obedecem a um regulamento, são normalmente num jardim, têm de ter casas de banho e estacionamento e devem ser à sombra, para manter a frescura dos produtos”, exemplifica Jaime Ferreira.

Aos poucos, começaram a surgir modelos semelhantes um pouco por todo o país, em mercados geralmente organizados pelas câmaras em conjunto com as associações de agricultores locais.  É o caso da Feira de Produtos Biológicos do Porto, que nasceu em 2003 no Parque da Cidade, na sequência de uma proposta do Ambiente da Câmara Municipal do Porto à Associação Profissional para o Desenvolvimento da Agricultura Biodinâmica e Biológica (Agridin). “A ideia do departamento do Ambiente era que aquele espaço fosse um pouco mais movimentado e que se aproximasse das suas origens (era uma quinta)”, conta Isabel Silva Teixeira, vendedora no mercado desde o primeiro ano e representante dos produtores junto da câmara.  Hoje, acontece todos os sábados e reúne cerca de 10 produtores permanentes e cinco eventuais que vêm das regiões Norte e Centro. E “o número de clientes tem crescido todos os anos”, nota Isabel Silva Teixeira. Entretanto, ali ao pé, também Matosinhos, Gondomar e Braga viram nascer os seus mercados.

A Feira de Produtos Biológicos de Braga, por exemplo, começou em 2011, numa iniciativa da Associação Minhorigem, em parceria com a Câmara Municipal, com vista ao “escoamento dos produtos biológicos de proximidade (o regulamento apenas permite a participação de produtores e entidades com sede ou produção delimitada à Região do Minho)”, revela José Sousa, tesoureiro da associação e produtor. Ano após ano, também este mercado tem atraído cada vez mais pessoas. “Os clientes têm vindo a aumentar significativamente, mantendo-se os iniciais fiéis, ocorrendo clientes semanais, outros quinzenais e outros eventuais”, diz, destacando “uma multiculturalidade de clientes, de diferentes idades e com razões e princípios diferentes para consumir produtos biológicos”.

Mais sabor e saúde

E quais são, afinal, as razões dos clientes? “A diferença dos produtos biológicos é enorme em sabor e qualidade”, diz Rui Coelho, 56 anos, gestor, cliente habitual do Mercado do Príncipe Real. “A minha procura e interesse pelos produtos biológicos começou quase em simultâneo com o início do mercado. Ajudou muito haver o mercado aqui”, conta, para acrescentar que “ainda que sem radicalismos, tentamos consumir em casa cada vez mais frutas e legumes biológicos”. Até porque, nota, “tenho filhos e é importante dar-lhes uma alimentação saudável”.

Uma preocupação partilhada por Ana Sereno, 36 anos, professora de ioga e cliente assídua da Feira de Produtos Biológicos do Porto. “Tenho dois filhos pequenos, e quero dar-lhes o melhor”.  Vegetariana há 12 anos, recorda que nessa altura era muito mais difícil encontrar alimentos “de qualidade”, e acredita que este tipo de mercados ainda tem muito para crescer num “país com uma terra tão fértil e que dá produtos tão bons”. Afinal, sublinha, trata-se de “uma questão de saúde: é muito mais saudável não ingerir produtos químicos”.

Também Helena Rafael, 48 anos, assessora de imprensa, destaca a importância “da qualidade daquilo que comemos para o nosso corpo”. Consumidora de produtos biológicos há largos anos (começou como cliente da cooperativa Biocoop, no aeroporto Figo Maduro, e hoje é cliente dos mercados de Telheiras e do Príncipe Real), acredita que a contaminação dos alimentos poderá estar na origem de alguns problemas de saúde que tem, designadamente nas intolerâncias ao glúten e à lactose. Por isso, sempre que pode, privilegia “os alimentos biológicos, que não estão contaminados, sei de onde vêm e são muito mais saborosos”.

A sazonalidade é outro fator apontado pelos consumidores. “Agora só como produtos da época. Descobri quais são os legumes e as frutas de cada estação (e outros novos, que nem conhecia)”, conta Catarina Cristóvão, 46 anos, informática, cliente do mercado do Campo Pequeno, em Lisboa, desde que abriu, já lá vão uns três anos. “Como moro aqui, é fácil, e já nem compro no supermercado”, diz. Quanto ao preço, garante que “se escolhermos bem, alguns até são mais baratos, além de que duram muito mais tempo”.

As preocupações dos consumidores coincidem, todos eles destacando a importância de privilegiar alimentos livres de químicos, locais e sazonais. Mas também há quem colha outros frutos nestas idas ao mercado. “Prefiro sempre produtos biológicos porque a sensação de sentir que estou a comer os produtos tal e qual eles são, sem alterações, sem venenos, apenas como a natureza os disponibiliza, é maravilhosa. Só isso alimenta!”, diz Filipa Costa e Moura, 47 anos, consultora de comunicação, confessando: “Parece que com os produtos biológicos estou a consumir saúde diretamente, e essa sensação faz-me bem, faz-me sentir mais viva e com mais respeito pela natureza. Há lá melhor sensação?”.

Bio para todos

A satisfação dos clientes é notória, ainda que, aqui e ali, se façam ouvir algumas críticas, seja sobre o preço elevado ou a garantia de qualidade dos produtos. Esta é, ao que parece, uma dúvida sem fundamento (pelo menos na maior parte dos casos). “A qualidade dos produtos que se vendem nos mercados Agrobio é garantida”, assegura Jaime Ferreira, adiantando que “os produtores, além de terem de obedecer a um regulamento e de terem de certificar os seus produtos, são também controlados pela ASAE ou mesmo pelas entidades certificadoras”, uma realidade a que, diz, é “muito difícil de fugir”.

José Sousa, da direção da associação Minhorigem, confirma: “Em primeira mão, o controlo de qualidade é da responsabilidade legal de cada produtor ou comerciante bio. A fiscalização é garantida pelas entidades oficiais, como a ASAE, e pelas entidades certificadoras, que podem mesmo aparecer no mercado, verificarem a conformidade e regras vigentes no Regulamento do Modo de Produção Biológico e proceder a recolha de amostras aleatórias para posterior análise (isto pode ocorrer nos mercados, como na própria origem de produção dos artigos em venda). Depois, cada produtor tem de garantir o cumprimento das regras de produção, acondicionamento e rastreabilidade dos seus produtos, assim como o de todas as regras e técnicas aplicáveis ao Modo de Produção Biológico”.

Para que os produtos biológicos sejam para todos, defende o presidente da Agrobio, há que “educar a população” e, ao mesmo tempo, aumentar a produção. “A agricultura biológica ainda não é suficiente para aquilo que os portugueses querem – há um estudo do Instituto de Ciências Sociais que mostra que 60% dos portugueses querem consumir biológico”, nota, lembrando que os objetivos delimitados pela Estratégia Nacional para Agricultura Biológica 2017-2027 mostram claramente que “é necessário aumentar a produção biológica, porque ainda se importa muito”. Mas Portugal, remata, “tem tudo bom” para produzir mais.

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