As florestas desempenham um papel crucial na mitigação dos efeitos das alterações climáticas. Paulo Canaveira explica como.

Paulo Canaveira é engenheiro florestal, investigador auxiliar no Instituto Superior Técnico e consultor da Agência Portuguesa do Ambiente na área das alterações climáticas para o setor do uso do solo e florestas.

Como podemos contrariar os impactos negativos das alterações climáticas?

Há dois tipos de resposta que acabam por ser complementares: a mitigação, que significa tentar reduzir as emissões de carbono e/ou aumentar o sequestro, e a adaptação, cuja perspetiva é como nos adaptamos e como conseguimos viver com um clima diferente daquele em que a sociedade evoluiu.

Quais são os argumentos do planeta, relativamente ao sequestro de emissões?

Temos dois grandes sistemas no sequestro – o terrestre e os oceanos. As emissões humanas são cerca de 7,8 mil milhões de toneladas de carbono/ano, sendo que as florestas conseguem ir buscar de volta 4,3 mil milhões de toneladas e os oceanos 1,6 mil milhões de toneladas. Estes números são globais e, entre o que pomos e o que os sistemas naturais conseguem retirar, neste momento estamos a acumular na atmosfera cerca de 4 mil milhões de toneladas de carbono/ano, o que é muito.

As florestas são, então, o mais importante sumidouro de carbono no planeta?

Este número (4,3 mil milhões de toneladas de carbono/ano) é em si mesmo um balanço entre sequestro e emissões, pois as florestas também têm emissões, decorrentes da respiração das árvores, por exemplo. Claro que as emissões mais evidentes têm como origem os incêndios florestais, mas também aquilo que os seres humanos fazem sobre as florestas, como cortá-las. Nos sistemas mais intensivos, como as florestas de produção, a equação equilibra-se, pois o recurso está constantemente a ser renovado com a plantação de árvores.

Qual o balanço da floresta portuguesa em termos de sequestro de carbono?

O nosso balanço florestal é bastante variável, devido aos incêndios. O que cortamos e o que plantamos todos os anos é mais ou menos estável. Temos contas feitas desde os anos de 1990 e o sequestro líquido de todo o uso de solo – florestas, agricultura, etc. – em anos em que não temos incêndios, anda pelos 8 a 10 milhões de toneladas de carbono. Num ano excecionalmente bom, poderá ir até aos 12 milhões. No cenário inverso temos o exemplo de 2017, ano em que, com a gravidade dos incêndios, não só não houve sequestro como a floresta ainda acrescentou mais 10 milhões de toneladas de emissões. Foi a primeira vez que tal aconteceu.