A Herdade do Freixo do Meio inspira-se nas árvores para a realização de experiências na área da agrofloresta, num modelo de agricultura que imita a natureza e que, no início de setembro, lhe valeu a referência de exemplo a seguir num estudo da Agência Europeia do Ambiente. 

“Estamos convencidos de que a árvore é o motor da natureza; é o ser que está mais capacitado para transformar energia em matéria”, diz Alfredo Cunhal Sendim, que no início dos anos 90 retomou a exploração da propriedade com a mãe. Na Herdade do Freixo do Meio, no Alentejo, pratica-se agricultura biológica desde 1997 e agroecologia desde sempre, mas foi apenas há três anos que teve início um projeto de agrofloresta que utiliza ramos de eucalipto triturados na produção de batata. O resultado são tubérculos mais saborosos e duráveis, e uma produção mais sustentável.

Tapar as batatas, depois de colhidas, com ramos e folhas de eucalipto, é um “truque” conhecido para as conservar e evitar a traça. Mas na Herdade do Freixo do Meio a utilização desta árvore começa logo na plantação. As batatas não são enterradas, mas antes colocadas sobre a terra e cobertas com 10 centímetros de madeira de eucalipto triturada, de acordo com a técnica Bois Raméaux Fragmentés (BRF), ou, em português, Aparas de Ramos Fragmentados [ver caixa], desenvolvida pelo canadiano Gilles Lemieux. “Dentro da panóplia de árvores com que trabalhamos, o eucalipto é absolutamente excecional”, afirma Alfredo Cunhal Sendim, que explica que esta espécie pode ser usada para recuperar ecossistemas e solo: “Depois do primeiro corte da árvore, nascem uma série de varas da toiça, e tem de se selecionar uma para voltar a dar uma árvore. Tudo o resto pode ser triturado e usado para este fim”, explica.

Na produção de batata, a madeira, além de funcionar como manta morta que vai proteger o solo, ajuda na retenção da humidade e, por nela se desenvolverem fungos que vão buscar nutrientes e água à atmosfera, permite um uso mais eficiente da água. Em consequência, a necessidade de usar fatores de produção externos ao ecossistema, como agroquímicos ou agrotóxicos, é praticamente anulada, preservando o produto e o meio de eventuais contaminações. “Não tem havido pragas ou problemas com a geada. A batata dura muito mais e é mais saborosa”, garante Alfredo Cunhal Sendim.

Alfredo Cunhal Sendim

Esta técnica de utilizar cobertura morta, isto é, palha, folhas, madeira desfiada e outras fibras naturais para cobrir o solo e evitar a evaporação, faz parte da estratégia utilizada pela Herdade do Freixo do Meio para reduzir as suas necessidades de água e a erosão do solo, aumentando a resiliência às alterações climáticas e mantendo um sistema agroflorestal economicamente viável. Uma estratégia que o estudo “Adaptação às Alterações Climáticas no Sector Agrícola na Europa”, divulgado no dia 4 de setembro pela Agência Europeia do Ambiente, apontou, como exemplo a seguir.