Os espaços verdes hortícolas estão a aumentar nas cidades. A ciência prova que fazem bem ao ambiente e à saúde, mas não é só. Há quem diga que nos torna mais “humanos” e que ver como a natureza se comporta ajuda a relativizar os problemas e a encarar a vida de outra forma.  

“De dia, o meu trabalho é mostrar como a robótica e a inteligência artificial estão a mudar a sociedade e ajudar as pessoas a prepararem-se para esta mudança exponencial que aí vem; à noite, venho regar as alfaces e as cenouras”. As palavras são de João Mil-Homens, diretor executivo da SingularityU Portugal, responsável pelo desenvolvimento de programas com vista a capacitar as empresas para a utilização de tecnologias.

Contraditório? Nada disso. É que, defende, face a este mundo cada vez mais digital e tecnológico, “o nosso futuro enquanto espécie é sermos cada vez mais humanos e empáticos, estarmos conectados com nós mesmos”, ou seja, “as competências que temos de adquirir não são as tecnológicas – para isso existem os computadores –, são as humanas”. E a horta, diz, acaba por ser uma excelente ferramenta nesta conquista.

“O contacto com a terra e o contacto com as pessoas que aqui vêm torna-nos mais humanos, além de trazer uma sensação de bem-estar”, garante João Mil-Homens. “Dá-me um imenso gozo cavar a terra e ver as minhocas, lançar as sementes e vê-las crescer… no fundo, ver a vida”. Além disso, reconhece, “isto é um agregador da comunidade – as pessoas falam-se e ajudam-se muito mais. Eu, que sempre vivi aqui e não conhecia ninguém, agora falo com toda a gente, estou muito mais sociável”. No fundo, sublinha, na cidade, as hortas comunitárias “ligam-nos à terra e às pessoas que formam a nossa comunidade” e “contribuem fortemente para o sentido de pertença que está na base das nossas necessidades como humanos”.

O seu dia-a-dia é imerso em tecnologia, mas João Mil-Homens faz o contraponto quando chega à horta e coloca as mãos na terra.

A pequena horta de 34 m2 que explora a escassos metros de casa faz parte da Quinta Pedagógica de Linda-a-Velha, resultado de um projeto submetido ao Orçamento Participativo da Câmara de Oeiras em 2012 e implementado em 2017, na sequência de uma ideia conjunta da Associação de Pais da Escola Secundária Amélia Rey Colaço e de um movimento ambientalista local. Ao todo, são 60 talhões, e cada hortelão paga à câmara uma taxa anual de 58 euros. “Recebemos formação, porque há regras sobre que espécies plantar, que produtos e materiais podemos e não usar, e o resto aprendemos… todos os dias”.

Uma aprendizagem constante, um sonho antigo, e um prazer imenso. A par de tudo isto, vieram, naturalmente, outras mudanças, em particular na alimentação – “mudei a minha dieta, passei a comer muito mais sopa e nunca mais comprei uma cebola ou um tomate!” – e na sustentabilidade, porque “não se podem usar pesticidas e o lixo orgânico vai todo para a compostagem”.

Um pequeno contributo

Uma alimentação saudável e a defesa do ambiente foram também as grandes motivações que levaram a italiana Gabriella Gilli, investigadora no Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço, a procurar uma horta em Lisboa mal chegou a Portugal, há cerca de três anos. “Vivi numa pequena cidade perto de Paris, muito ecofriendly, onde tinha uma horta. Foi uma experiência muito boa e quis fazer o mesmo aqui”.

Arranjar o terreno não foi fácil: tentou o concurso camarário para atribuição de hortas, mas não teve sorte; acabou por conseguir a exploração de um pequeno pedaço de terra (cerca de 15 m2) no Instituto Superior de Agronomia, em conjunto com os estudantes. A terra ainda não está devidamente nutrida, mas os primeiros resultados foram excelentes. “Consegui ter um bocadinho de tudo: favas, ervilhas, alfaces, feijão verde, couves, tomates, pimentos, curgetes, pepinos, acelgas… e até algumas flores!”, conta, orgulhosa.

Gabriella Gilli procurou uma horta mal chegou a Lisboa. Já tinha tido uma antes, perto de Paris, e sabia a falta que o contacto com a terra lhe fazia.

Vegetariana, gosta de saber “de onde vem a comida” e faz questão de privilegiar os produtos biológicos e da época, pelo que a horta assenta na perfeição nestas suas prioridades. Mas há outras razões. “É um imenso prazer o contacto com a natureza e o ver crescer as plantas “, diz. Além de que, acrescenta, “ao ter uma horta biológica estou a dar o meu pequeno contributo para um mundo melhor”. No fundo, defende, “temos de ter consciência de que há pequenas coisas que podemos fazer, como cultivar uma horta, para aumentar os espaços verdes e, assim, melhorar o ambiente”.

Grande procura

João Mil-Homens e Gabriella Gilli são apenas dois entre muitos casos de citadinos que, entre agendas preenchidas, torres de cimento e quilómetros de alcatrão, decidiram dedicar parte do seu tempo ao cultivo de uma horta. Uma tendência crescente nos últimos anos, que tem vindo a fazer com que as câmaras disponibilizem, mediante uma renda simbólica, espaços próprios para o efeito. Os Parques Hortícolas de Lisboa, o projeto Hortas Urbanas de Oeiras, o Programa Municipal de Hortas Solidárias de Sintra ou o Parque Hortícola do Vale da Amoreira da Moita são exemplos disso.

Só em Lisboa, existem neste momento 19 parques hortícolas, num total de 732 talhões individuais, e até 2021 estão previstos 1 000 talhões na cidade. Existe “um grande número de pessoas” a participar nos Concursos para Atribuição de Hortas, revela-nos fonte camarária, adiantando que neste momento já há “muitos parques com listas de suplentes entre 50 a 300 pessoas”.

Uma procura que acaba por vir ao encontro das prioridades da própria câmara. “A sustentabilidade ecológica e física, a capacidade de regeneração dos recursos naturais, o equilíbrio da paisagem tradicional e a própria alimentação da população são aspetos fundamentais que não podem ser esquecidos no planeamento e ordenamento do território”, diz-nos a mesma fonte, destacando como grandes objetivos destes parques “a presença de valores biológicos na cidade” e a “constituição de espaços tampão, com impacto positivo, ao nível da melhoria do microclima urbano, nomeadamente na circulação do ar e balanço de humidade”. Além disso, contribuem para “a reciclagem de resíduos orgânicos e para a manutenção da qualidade da água, através das capacidades filtrantes do solo”.

Mas o significado das hortas – e os benefícios que advêm do contacto com a terra – não se ficam por aqui.

Ver a vida de outra forma

Carlos Ferreira, engenheiro de formação e planeador estratégico de profissão, cansou-se da vida que levava e resolveu mudar. “Atingi o limite”, confessa, reconhecendo que “não precisava de estatuto nem de tanto dinheiro” e que “havia outras coisas mais importantes” do que uma carreira internacional. Por isso, optou “por uma vida mais simples”, onde “o prazer de criar e mexer na terra” encaixaram na perfeição.

A relação com a terra e as plantas mudou a forma de Carlos Ferreira encarar os outros e o mundo.

Esta “enorme ligação” à terra vem de longe. Grande parte da infância foi passada em Bustos, uma vila no distrito de Aveiro, onde a família de Carlos tinha uma quinta. “Sempre gostei muito de ajudar no campo e sempre admirei muito a harmonia da natureza”, lembra. Quando entrou na universidade, veio viver para Lisboa e as suas prioridades mudaram. Licenciou-se em Engenharia Civil e enveredou por uma carreira de estratégia e criação de marcas. Há cerca de cinco anos, cansou-se e mudou radicalmente os seus “objetivos pessoais e profissionais”, acabando por se reformar.

“Incompatibilizei-me com todo aquele mundo onde vivia”, confessa. Nesta busca de novos horizontes, deparou-se com outra faceta de si próprio. “Sou muito mais autêntico, aberto e tolerante do que pensava”, garante, sorridente. Por outras palavras, “descobri que tinha capacidades que sempre achei que não tinha”. Quase naturalmente, esta “forma diferente e positiva de estar na vida” levou-o a redescobrir o “prazer da terra e do outro”.

Há seis anos, participou no Concurso para Atribuição de Hortas no Parque Hortícola Bensaúde, em São Domingos de Benfica, onde reside, e desde então todos os dias dedica algum tempo a tratar (e acarinhar) a terra. “Planto aqui, colho ali, tiro umas ervas aqui, limpo ali, olho, observo, experimento…”, conta, enquanto nos passeamos pelos 100 m2 do talhão de terra que lhe foi atribuído (um dos 24 que perfazem o total de hortas deste parque) e onde crescem os mais variados exemplares. Do manjericão às cenouras, passando por cebolas, batatas, alface e tomates.

É inegável que a sua alimentação passou a ser mais rica e diversificada e o desperdício menor (ervas e lixo orgânico vão para a compostagem), mas a grande mudança acabou por ser o contributo que a terra lhe trouxe para a sua nova forma de estar e de se relacionar com os outros. “Ao vermos como a natureza se comporta, aprendemos a ver a vida de outra forma, a relativizar os problemas e a simplificar”, sublinha. Deita mais um olhar ternurento ao canteiro do lado e remata: “É que as plantas queixam-se de outra forma…”.

Outro mundo

Uns metros mais acima, Inês Romano rega a terra, aproveitando os tempos de espera para inspecionar os canteiros e tirar algumas ervas daninhas. “A minha horta não é tão bonita como a do Carlos”, ri-se, lamentando não ter mais tempo para se dedicar a este seu “vício”.

A pequena horta que teve na casa onde cresceu, em Azeitão, e o terreno de uma tia nos arredores de Torres Vedras deixaram-lhe “o bichinho”. Há uns anos, concorreu para a atribuição de uma horta nos Jardins de Campolide, mas não teve grande sorte. Uma vizinha convidou-a a partilhar o trabalho no talhão que lhe coubera e Inês não hesitou. Depois desta experiência, foi para o Parque Bensaúde.

Apesar da prática trazida da infância, teve de adquirir alguns conhecimentos antes de lançar mãos à obra. Até porque há uma série de requisitos camarários que exigem o cumprimento de normas rigorosas. Foi fácil. “Aprendi tudo nos livros e no YouTube”. O resto veio com o tempo, a experiência e a paixão. “Saio daqui toda partida, mas isto faz-me muito bem… é um relaxe total”, confessa Inês, contabilista de profissão. “É quase como outro mundo. Aqui, são outros problemas”, diz. Como se a vida ganhasse a genuinidade que tantas vezes a encobre. “Isto é que é verdadeiro, tudo o resto parece artificial”.