Rabiscar para manter o foco

15 de Janeiro 2026

Encarados frequentemente como sinal de distração, os rabiscos na margem do caderno podem ser, afinal, uma estratégia que nos ajuda a manter a atenção. Tal como na escrita à mão, rabiscar ativa a ligação mão-cérebro, aumentando o nosso poder de concentração e capacidade de memorização.

Aulas, conferências, telefonemas intermináveis ou longas reuniões desafiam o nosso poder de concentração. Para muitos, torna-se inevitável começar a rabiscar nas margens de um caderno ou de um bloco de notas. Às vezes, chegando mesmo a encher folhas inteiras. As formas são aleatórias. Passam frequentemente por linhas paralelas ou onduladas, círculos e quadrados, espirais e flores, corações e estrelas, setas e chavetas, em padrões muito certinhos ou num perfeito caos.

O que é relevante é que, ao contrário do que parece, rabiscar não é sinónimo de distração. A ciência tem demonstrado exatamente o contrário, revelando que o doodling – termo inglês para o fenómeno – é uma forma de nos mantermos mais atentos e focados, evitando a dispersão mental a que o contexto convida.

O dicionário define rabiscar como a ação de “fazer traços mal feitos ou ao acaso; cobrir de rabiscos; traçar garatujas”. Neste contexto, a parte do “ao acaso” não é um detalhe. Na verdade, enquanto estamos a rabiscar, não estamos focados nessa tarefa – os traços saem em modo automático, enquanto o nosso cérebro reserva a atenção principal para a informação que está a receber por via auditiva. A psicóloga Jackie Andrade, da Universidade de Plymouth, Reino Unido, estudou precisamente o efeito dessa ação na retenção de informação.

Os participantes no seu estudo (de 2010) foram divididos em dois grupos: ambos ouviram uma mensagem áudio monótona, de dois minutos, e a todos foi pedido, no final, que transmitissem o que tinham acabado de ouvir. A diferença é que um grupo rabiscava enquanto ouvia; o outro limitava-se a ouvir, com as mãos desocupadas. Os resultados mostraram que o grupo que pôde rabiscar reteve mais 29% da informação do que o grupo que apenas ouviu.

A poderosa ligação mão-cérebro

A investigadora avançou a hipótese de o ato de rabiscar poder reduzir a tendência para divagar, que ocorre tipicamente na presença do tédio, deixando o cérebro mais focado no essencial. Perante uma atividade aborrecida, o cérebro tende a desligar. A presença de um estímulo repetitivo e pouco exigente, que envolve atividade motora, ajuda a mantê-lo em modo “on” e focado na informação que está a receber.

Este fenómeno tem ligação com os benefícios da escrita à mão, como facilitadora da aprendizagem e da memorização. Escrever ou rabiscar exige uma coordenação motora que ativa redes neuronais ligadas à memória e ao processamento linguístico. Pela mesma razão, tirar notas em papel e produzir resumos manuscritos são estratégias poderosas para reter informação.

Ativar uma zona do cérebro crucial

Depois de Jackie Andrade, houve outros investigadores que se dedicaram a estudar o que acontece no cérebro quando rabiscamos. Girija Kaimal e a sua equipa, por exemplo, avaliaram a atividade cerebral através de uma técnica de imagiologia – a Espectroscopia Funcional em Infravermelho Próximo (fNIRS). Num estudo publicado em 2017 revelaram que, ao rabiscar, estamos a ativar o córtex pré-frontal — a zona do cérebro que nos permite, entre muitas outras funções importantes, resolver problemas, dirigir a nossa atenção e também memorizar. Manter essa zona ativa, através dos rabiscos, é, assim, manter o cérebro focado e alerta.

Não há, portanto, razão para esconder os nossos rabiscos. Eles não estão a distrair-nos; estão a ajudar-nos a manter a nossa capacidade de foco.