As pradarias marinhas capturam carbono, protegem a costa e são vitais para a biodiversidade. O novo programa nacional Floresta Azul foi criado para restaurar estes valiosos habitats.
As pradarias marinhas são como florestas no fundo do mar. E, tal como as florestas terrestres, são zonas extremamente ricas em biodiversidade. São formadas por ervas marinhas – plantas aquáticas muito especiais, porque, apesar de viverem debaixo de água, têm raízes, caule e folhas, e até produzem flores, frutos e sementes. São, assim, bem diferentes das algas, tendo mais em comum com espécies ancestrais terrestres, a partir das quais evoluíram, há cerca de 100 milhões de anos.
Foi este património natural que esteve recentemente no centro da atenção em Portugal, a propósito da criação do programa Floresta Azul. A iniciativa do governo prevê dois milhões de euros para 2026 e 2027, destinados ao restauro ecológico destes ecossistemas.
Mas o que justifica este investimento nas pradarias marinhas? A resposta está nas múltiplas funções ecológicas que desempenham:
✅ São verdadeiros hotspots de biodiversidade. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), as pradarias marinhas cobrem apenas 0,1% do fundo do oceano, mas fornecem abrigo e alimento a milhares de espécies, incluindo peixes, crustáceos e espécies ameaçadas, algumas tão emblemáticas como os cavalos-marinhos e as tartarugas marinhas.
✅ São um dos mais importantes sumidouros naturais de carbono – mais de metade de todo carbono disponível na atmosfera é fixado por organismos que vivem no mar, sendo denominado “carbono azul”. As pradarias marinhas são especialmente eficientes neste serviço de ecossistema, armazenando, de acordo com dados do PNUMA, até 18% do carbono oceânico mundial. São, por isso, uma peça fundamental no combate às alterações climáticas.
✅ São determinantes para a pesca, pois funcionam como locais privilegiados de reprodução e berçários para inúmeras espécies. Segundo o PNUMA, um quinto das 25 indústrias pesqueiras mais importantes, a nível mundial, depende das pradarias marinhas.
✅ São filtros naturais da água, assegurando a sua qualidade, com todos os benefícios que daí advêm para as espécies marinhas, mas também para a economia e saúde humanas.
✅ São agentes ativos de proteção da linha costeira, prevenindo a erosão e os seus efeitos junto das comunidades que vivem junto ao mar. Além disso, reduzem a energia das ondas, reduzindo os riscos crescente associados a inundações e tempestades.
As pradarias marinhas portuguesas e a sua proteção
Na costa portuguesa, as pradarias marinhas são constituídas sobretudo pelas espécies Zostera marina, Zostera noltei e Cymodocea nodosa. Ocorrem, principalmente, nas zonas costeiras rasas, estuários e lagoas. Destacam-se áreas como a ria Formosa, o estuário do Mira, os estuários do Tejo e do Sado, a Lagoa de Óbidos e a ria de Aveiro – habitats tão preciosos como sensíveis à atividade humana e aos efeitos da crise climática, e que, por isso, estão a perder terreno.
“A sua degradação, resultante de pressões antrópicas e do impacto das alterações climáticas, exige uma resposta coordenada, baseada na ciência e alinhada com os compromissos nacionais e internacionais em matéria de biodiversidade e ação climática”, pode ler-se na portaria que aprova a criação do programa Floresta Azul.
O programa prevê várias linhas de ação, como mapeamento e monitorização; intervenções físicas de restauro ecológico; criação de viveiros para produção e aclimatação de plântulas, sementes e rizomas a serem transplantados nos habitats degradados; ações de divulgação, educação ambiental e sensibilização; investigação com vista a aprofundar o conhecimento técnico e científico sobre as pradarias marinhas.
Restaurar e proteger as pradarias marinhas exigirá, assim, ações em múltiplas frentes. Incluindo tornar mais conhecido e valorizado o seu papel fundamental para a vida marinha, para o bem-estar humano e para a regulação do clima.