As energias renováveis estão no centro da transição energética, mas continuam envoltas em ideias feitas que simplificam em excesso um sistema complexo. Perceber como funcionam e se complementam é essencial para um debate mais informado.
As energias renováveis são hoje uma peça central na redução da dependência de combustíveis fósseis e na transformação dos sistemas energéticos. Ainda assim, persistem mitos que distorcem a forma como são percecionadas e discutidas.
A transição energética baseada em renováveis não depende de uma fonte única nem de soluções milagrosas. Depende de um conjunto diversificado de tecnologias, capazes de se complementar no tempo e no território, de sistemas elétricos preparados para gerir essa diversidade e de uma utilização mais eficiente da energia. É neste contexto que importa distinguir mitos de factos e perceber os verdadeiros desafios da mudança em curso.
Mito: as renováveis não funcionam no inverno
É um dos equívocos mais comuns, sobretudo quando se fala de energia solar. É verdade que, no inverno, há menos horas de sol, mas isso não significa que os painéis deixem de produzir eletricidade.
Os painéis fotovoltaicos funcionam com luz, não com calor. Dias frios e luminosos podem até possibilitar uma maior eficiência do que a registada em períodos muito quentes, porque o excesso de calor pode reduzir o rendimento dos módulos.
Além disso, o sistema elétrico não depende apenas do sol. Em Portugal, os meses de inverno são tipicamente mais favoráveis à produção hídrica e eólica. Ou seja, chuva e vento ajudam a compensar a menor produção de energia solar. É precisamente esta complementaridade que torna o sistema renovável mais estável. Segundo a Agência Internacional da Energia, a integração de elevados volumes de energias renováveis é facilitada por sistemas que combinam diferentes fontes e mecanismos de flexibilidade.
Mito: as renováveis não compensam
Durante anos, esta afirmação até teve algum fundamento. As tecnologias eram caras, pouco maduras e altamente dependentes de apoios públicos. Mas esse cenário mudou de forma significativa.
Na última década, o custo da energia solar fotovoltaica caiu cerca de 90 por cento, a nível global, segundo dados da Agência Internacional de Energia. A energia eólica seguiu uma tendência semelhante, tendo registado uma redução de mais de 70%. Hoje, em muitos países, produzir eletricidade a partir de renováveis, mesmo sem subsídios, é mais barato do que recorrer a centrais a carvão ou gás.
Para além do custo direto, há outros benefícios claros: menor dependência energética do exterior, menor exposição à volatilidade dos preços dos combustíveis fósseis e redução das emissões de gases com efeito de estufa.
A maior disponibilidade de produção renovável, em particular solar e hídrica, tem sido associada a períodos de preços mais baixos no mercado grossista de eletricidade, como mostram os dados do mercado ibérico e as análises da ERSE (Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos).
Mito: é tudo igual
Não é, e ainda bem. Solar, eólica, hídrica, biomassa ou geotérmica têm características muito diferentes. Produzem em momentos distintos, respondem de forma diversa às condições meteorológicas e têm impactos territoriais específicos.
A energia solar tem picos durante o dia. A eólica pode produzir à noite. A hídrica funciona muitas vezes como reserva estratégica, permitindo ajustar rapidamente a produção à procura. A biomassa, desde que gerida de forma sustentável, pode fornecer energia de forma contínua.
Esta diversidade torna o sistema mais resiliente. Construir um mix equilibrado é essencial para garantir segurança de abastecimento e reduzir falhas. Os dados da REN mostram que a gestão da rede elétrica portuguesa depende cada vez mais da complementaridade entre fontes renováveis, das interligações internacionais e dos sistemas de armazenamento.
Mito: as renováveis não são assim tão limpas
É verdade que as energias renováveis não são de “impacto zero”. A produção de painéis, turbinas ou baterias envolve extração de matérias-primas, fabrico, transporte e fim de vida, tudo com custos ambientais. Mas a diferença está na escala e na duração desses impactos.
Quando se analisa todo o ciclo de vida, desde a produção até ao desmantelamento, as emissões de gases com efeito de estufa associadas às renováveis são muito inferiores às dos combustíveis fósseis. Um painel solar ou uma turbina eólica concentra a maior parte do impacto no início da sua vida útil. Depois disso, produz eletricidade durante décadas sem queimar combustível e sem emissões diretas.
No caso do carvão, do petróleo ou do gás natural, a poluição é contínua enquanto a central estiver em funcionamento. Segundo a Agência Europeia do Ambiente, mesmo considerando todo o ciclo de vida, a intensidade carbónica da eletricidade produzida por fontes renováveis é várias vezes inferior à das fontes fósseis.
O que está em jogo
A transição energética não é apenas uma mudança de tecnologias. É uma transformação mais ampla – económica, social e cultural –, que envolve a forma como produzimos, distribuímos e usamos a energia.
As energias renováveis são uma peça central dessa mudança, porque permitem reduzir emissões e diminuir a dependência de combustíveis fósseis. No entanto, não resolvem, por si sós, todos os desafios do sistema energético. Um modelo sustentável exige eficiência, ou seja, conseguir o mesmo nível de conforto com menos energia, graças a edifícios mais bem isolados, equipamentos mais eficazes e sistemas mais inteligentes. Mas exige, igualmente, uma redução do consumo total de energia, o que implica escolhas e hábitos diferentes.
Sem eficiência, a transição torna-se mais cara e mais lenta. Sem redução do consumo, mesmo sistemas baseados em energias renováveis podem revelar-se insuficientes. A transição energética depende, por isso, tanto das infraestruturas que construímos como da forma responsável como usamos a energia no dia a dia.