Quando se fala em vida selvagem, o imaginário coletivo viaja para parques naturais remotos ou reservas africanas. No entanto, a investigação científica tem demonstrado que as cidades podem albergar uma diversidade considerável de espécies, muitas delas adaptadas à presença humana.
A urbanização é frequentemente apontada como uma das principais ameaças à biodiversidade. Ainda assim, a investigação em ecologia urbana demonstra que há espaços nas cidades e em seu redor que podem funcionar como habitats relevantes para determinadas espécies, sobretudo quando existe uma rede de parques, jardins, linhas de água e áreas verdes interligadas.
Estudos comparativos realizados em cidades de vários continentes mostram, por exemplo, que a riqueza de espécies de aves aumenta com a cobertura arbórea e a diversidade de habitats urbanos. Parques, jardins estruturados e corredores verdes tendem a albergar mais espécies do que áreas densamente impermeabilizadas. Em alguns contextos europeus, segundo dados da Agência Europeia do Ambiente, com base no Farmland Bird Index, esses espaços urbanos chegam a registar uma diversidade semelhante, ou até superior, à observada em paisagens agrícolas intensivas, onde a simplificação do uso do solo reduziu habitats e alimento disponível.
Em Portugal, registos do ICNF e observações documentadas em plataformas de ciência cidadã confirmam a ocorrência de mamíferos como a raposa e o ouriço-cacheiro em zonas periurbanas. A lontra-europeia, por sua vez, utiliza várias linhas de água que atravessam ou margeiam áreas urbanas.
Espécies que aprenderam a viver connosco
A raposa-vermelha é um dos exemplos mais conhecidos de adaptação à vida urbana. Estudos realizados no Reino Unido, onde a espécie é amplamente monitorizada, indicam que as populações urbanas podem atingir densidades superiores às registadas em meio rural. A abundância de alimento, desde pequenos roedores até restos orgânicos, e a existência de abrigo em jardins e terrenos abandonados explicam esta presença.
Em Portugal, a raposa é cada vez mais avistada em periferias de cidades e vilas. A sua atividade noturna faz com que passe despercebida, mas vestígios como pegadas ou restos de presas denunciam a sua proximidade.
O ouriço-cacheiro, espécie protegida por legislação europeia, encontra nas zonas residenciais com vegetação um habitat favorável. Alimenta-se de insetos, lesmas e outros invertebrados, desempenhando um papel importante no controlo biológico de pragas. A fragmentação dos jardins por muros e vedações contínuas é, no entanto, um dos principais obstáculos à sua sobrevivência. Iniciativas noutros países europeus incentivam a criação de pequenas passagens entre jardins contíguos, permitindo a circulação destes animais.
Os morcegos são outro exemplo de fauna que se adaptou ao contexto urbano. Em Portugal existem 27 espécies confirmadas e várias utilizam edifícios, pontes e outras estruturas construídas como locais de abrigo ou reprodução. Estudos internacionais estimam que uma única colónia pode consumir milhares de insetos numa noite, contribuindo para o equilíbrio ecológico.
Também as aves de rapina noturnas, como a coruja-das-torres, utilizam estruturas humanas para nidificar. A sua presença está associada à disponibilidade de presas como roedores, o que demonstra que mesmo os ecossistemas urbanos mantêm cadeias alimentares complexas.
A presença da lontra-europeia em linhas de água próximas de áreas urbanas é frequentemente interpretada como indicador de melhoria da qualidade ecológica. Trata-se de uma espécie sensível à poluição e à perturbação humana. O seu regresso a alguns rios portugueses nas últimas décadas está associado a políticas de saneamento e recuperação ambiental. Este fenómeno mostra que quando as condições melhoram, a fauna responde.
Observe com atenção o seu bairro, o jardim ou o parque mais próximo. A vida selvagem não está apenas nos documentários da televisão. Está mesmo ali, discreta, adaptável e surpreendentemente próxima.