Filipe Duarte Santos, Especialista em alterações climáticas, responde a três perguntas sobre incêndios, ajudando-nos a compreender as especificidades que tornam o território português tão vulnerável e as circunstâncias que estão a transformar os fogos rurais em fenómenos extremos.

Efetivamente, de acordo com os dados do European Forest Fire Information Service (EFFIS), somos o país em que a média da percentagem de área ardida anualmente em incêndios florestais e rurais no período de 2006 a 2024, relativamente à área de Portugal Continental, tem o valor mais elevado nos 27 países da UE, ou seja 1,05%. Segue-se a Grécia (0,38%), Chipre (0,32%), Croácia (0,24%), Itália (0,19%) e Espanha (0,16%). Na Península Ibérica, os dois países têm praticamente a mesma percentagem de área florestada: 36,7% em Espanha e 36,2% em Portugal (Eurostat e DG AGRI, 2020).
A principal razão da singularidade é a gestão das florestas em Portugal ser frequentemente deficiente comparativamente aos outros países da região Mediterrânea da UE, embora haja exemplos de gestão excelente. Dos cinco países dessa região — Espanha, França, Itália, Grécia e Portugal — os três primeiros tiveram uma regressão linear claramente decrescente da área ardida no período de 1980 a 2023; na Grécia foi apenas ligeiramente decrescente e em Portugal ligeiramente crescente (San-Miguel-Ayanz et al., 2023).
As principais causas da gestão deficiente são múltiplas e interligadas: transformação profunda do uso do território e das atividades agrícolas e florestais desde o princípio do século XX; despovoamento das regiões florestadas, especialmente no interior; envelhecimento da população residente e restante; grande fragmentação da propriedade rústica privada, especialmente no centro e norte; desadaptação do direito sucessório, fiscal e urbanístico às transformações socioeconómicas e culturais; abandono dos pequenos prédios rústicos; baixa rentabilidade económica de grande parte da área florestada, agravada pela recente curta ciclicidade dos grandes incêndios, que impede ou dificulta a boa gestão da floresta.
A segunda razão são as alterações climáticas que, em Portugal, geram um clima mais quente e seco, no qual as situações meteorológicas com elevado risco de incêndio se tornam mais frequentes. Esta mudança climática propicia incêndios extremos, com intensidade superior a 10 MW/m, muito difíceis de extinguir e que afetam grandes áreas (Bowman et al., 2020). A fração da área ardida pelos incêndios extremos é agora maior do que no passado (Royé et al., 2020), o que coloca desafios significativos de proteção civil e ambientais. A probabilidade de ocorrência de incêndios com mais de 2500 ha de área ardida na região Mediterrânea da Europa é 5 a 10 vezes superior à que se observa nos outros biomas da Europa. Os modelos indicam que esta probabilidade duplicará até 2100 na nossa região (Grünig et al. 2023).
A terceira razão é a limitada formação, qualificação e diversificação profissional técnica especializada para fazer face à vulnerabilidade com que nos defrontamos. Desde 2017 tem-se dado maior valor à proteção, especialmente depois da criação da AGIF em 2018. Nessa altura o investimento relativo à prevenção e combate de incêndios florestais e rurais destinava cerca de 20% à prevenção. Atualmente as duas componentes têm investimentos próximos. Tem-se progredido muito na prevenção dos incêndios florestais e rurais com atividades inovadoras, como, por exemplo, a criação de faixas secundárias sem vegetação e mosaicos que fragmentam a continuidade da floresta. A presença e intervenção dos bombeiros nessas zonas pode travar a progressão dos incêndios. Desde 2017 também se progrediu muito na proteção das pessoas e das respetivas áreas povoadas e infraestruturas. Foi dada maior prioridade a este objetivo extremamente importante da proteção, passando para segundo plano a defesa da floresta propriamente dita, especialmente nas áreas mais remotas e nas áreas protegidas. Deverá haver maior equilíbrio entre estas duas vertentes.
Enumere duas grandes diferenças nos incêndios de hoje, face aos do passado.
Incêndios extremos, que queimam grandes áreas, são mais frequentes devido a duas causas:
1 – Condições meteorológicas com grande risco de incêndio mais frequentes e extremas, resultantes das alterações climáticas.
2 – Enorme acumulação de biomassa fina (chamados finos) nas florestas, resultante de uma gestão deficiente de parte da propriedade privada rústica. Estima-se que o custo da remoção dos finos representa um encargo anual de 900 milhões de euros que teria de ser público, perante a inviabilidade económica de ser privado.
Que soluções apontaria para reduzir o número de incêndios intencionais em Portugal?
Grande parte dos especialistas em gestão florestal, prevenção e combate considera que os incêndios intencionais não constituem uma razão importante da vulnerabilidade e que mencioná-la é uma forma de desresponsabilização. Na minha opinião, é uma razão importante, que requer a adaptação do sistema judicial, no que respeita ao incendiarismo, às condições de vulnerabilidade atuais da floresta em Portugal.
“Em Portugal, as alterações climáticas geram um clima mais quente e seco, no qual as situações meteorológicas com elevado risco de incêndio se tornam mais frequentes.”
Nota: Este artigo foi publicado originalmente na edição nº 16 da revista My Planet, em novembro de 2025