Na opinião de Miguel Boó, os meios de comunicação não estão a cumprir o seu dever de fiscalizar promessas e denunciar as medidas anunciadas e quase nunca concretizadas por autoridades locais, regionais e pelo Estado, no que diz respeito ao fenómeno dos incêndios.

Em 2023, o Consello da Cultura Galega — um órgão estatutário que tem como presidente honorário o titular do governo galego — publicou um relatório que pretendia ser técnico, rigoroso e objetivo. No entanto, o texto recolhia apenas as ideias de ambientalistas e ecologistas, apresentando escassas referências científicas na bibliografia. Pois bem, esse dossier repetia, meio século depois, a mesma narrativa: classificava o eucalipto como espécie pirófita, invasora, alóctone, degradadora da paisagem, conflituosa e cultivada em monocultura.
Quando, há dez anos, publiquei a minha tese de doutoramento — “A má imprensa do eucalipto” —, a maioria dos mitos então investigados ainda persistia nos meios de comunicação, preconceitos que os mass media arrastaram, pelo menos, desde 1975 até 2011. É justo reconhecer que, desde então, e no que se refere aos incêndios, a comunicação tem melhorado, salvo algumas exceções, como o relatório com que abrimos estas reflexões.
Contudo, apesar dessa evolução, continua a ser necessário, a meu ver, um esforço maior no sentido de evitar a falsa equidistância quando uma notícia apresenta opiniões favoráveis e desfavoráveis. Não se deve atribuir o mesmo valor ao testemunho de um cientista e ao de uma pessoa afetada ou de um observador ocasional. Além disso, os meios de comunicação tendem a concentrar-se — até de forma excessiva — em relatar os efeitos dos incêndios, quando deveriam mostrar o que fazem os proprietários e as administrações em matéria de prevenção; quando deveriam servir de canal para educar a população sobre como agir durante um incêndio ou como proteger a sua casa; e quando deveriam analisar e/ou denunciar a evolução da recuperação das áreas ardidas em incêndios anteriores.
Neste sentido, os meios de comunicação têm uma obrigação ética e política — e não a cumprem, porque permanecem à espera de poder relatar os próximos incêndios, os dramas iminentes, aquilo a que nós jornalistas chamamos “interesse humano” — de fiscalizar as promessas e denunciar as medidas anunciadas e quase nunca concretizadas por autoridades locais, regionais e pelo Estado.
Na Galiza, mais de 90% dos incêndios florestais são provocados. São, naturalmente, bem conhecidos os fatores que favorecem essa sinistralidade. Que a esses vetores habituais se tenha somado o impacto das alterações climáticas, nada acrescenta ao perfil do incendiário nem, muito menos, incrimina a espécie. Uma espécie que continua a ser culpabilizada pelo fogo florestal, embora a oposição à “árvore demonizada” se concentre agora sobretudo em impedir a construção de uma fábrica de celulose — recorrendo aos mesmos slogans, às mesmas faixas, aos mesmos protagonistas e à mesma estratégia mediática de há 50 anos.
Atualmente, os incêndios são de tal modo incontroláveis — e entendo que isto se aplica igualmente a Portugal — que, mesmo duplicando ou triplicando os meios humanos e materiais, não seria possível dominá-los. Por mais que, a partir da oposição parlamentar ou das comunidades de montes, se reivindiquem mais aviões, mais helicópteros, batalhões de drones, exércitos de robots, patrulhas militares, o uso de inteligência artificial ou de extintores Ecofire (dez vezes mais eficazes do que a água, com um líquido orgânico e biodegradável, cuja logística, contudo, ainda apresenta lacunas), pouco ou nada se conseguirá.
E quando afirmamos que as ferramentas não serão suficientes, mesmo crescendo exponencialmente, não falamos de um futuro distante. É possível que já no próximo ano enfrentemos esse cenário, se o fogo passar de causar estragos dramáticos a tragédias em proporções insustentáveis. Por isso é tão importante proclamar que essa hipótese, que pode parecer exagerada, deveria já estar a ser estudada pelas administrações. Porque, se os efeitos das fagulhas no monte são devastadores, já vimos o que acontece quando se aproximam das casas rurais e, cada vez mais, de zonas densamente povoadas.
As autoridades deveriam aproveitar o outono e o inverno para se prepararem melhor para estas eventualidades que, infelizmente, se irão repetir. Porque, além dos trabalhos de limpeza e combate, que há décadas se realizam de forma manifestamente deficiente, é agora necessário acrescentar planos de proteção civil que respondam ao eventual êxodo da população perante fenómenos incendiários incontroláveis.
E cabe aos meios de comunicação recordar estas responsabilidades aos políticos que nos governam.
Por Miguel Boó, Doutorado em Comunicação, Universidade de Vigo
Nota: Este artigo foi publicado originalmente na edição nº 16 da revista My Planet, em novembro de 2025