A Floresta protege-se com economia

28 de Maio 2026

Duarte Cordeiro e Tiago Centeno apontam três dimensões estratégicas essenciais nas quais é preciso investir e alcançar acordos no sentido de transformar a floresta num verdadeiro ativo.

A propriedade rústica e florestal em Portugal tem características muito próprias que exigem reflexão e consensos nacionais para que se transforme num verdadeiro fator de resiliência ambiental, social e económica, capaz de atrair investimento e criar oportunidades de desenvolvimento e emprego, em especial nos territórios do interior. Para isso, é fundamental alcançar acordos duradouros em torno de três dimensões estratégicas essenciais.

A primeira dimensão estratégica é a reforma da propriedade rústica. De acordo com dados do ICNF e do Grupo de Trabalho para a Propriedade Rústica (GTPR), criado em 2021, Portugal tem mais de 8 milhões de hectares de propriedades rústicas (floresta, matos e pastagens, agricultura e outros usos), repartidas por 11,5 milhões de propriedades (de prédios), das quais cerca de 3,4 milhões estão em heranças indivisas, representando 30% do total. Esta fragmentação conduz a áreas médias muito reduzidas: 9,9 hectares no Alentejo, 1,3 hectares no Norte, 0,6 hectares no Centro e 2,3 hectares no Algarve. Sem modelos de gestão conjunta e sem maior concentração, nunca conseguiremos ser competitivos. A reforma da propriedade é o ponto de partida de qualquer estratégia de longo prazo para o setor florestal, para prevenção de incêndios, para concretização das metas de sumidouro de carbono ou para políticas de repovoamento do interior. Só através da valorização económica e da promoção do rendimento associado à escala produtiva conseguiremos atrair investimento, fixar pessoas, criar emprego, assegurar a limpeza dos terrenos e reduzir riscos.

A segunda dimensão estratégica é o alinhamento entre os mercados voluntários de carbono e de restauro da natureza com a agricultura e com as fileiras florestais mais relevantes. Em 2024, as exportações de produtos florestais representaram 8% do total nacional, cerca de 7,9 mil milhões de euros, mais 180 milhões do que em 2023, enquanto as importações diminuíram 60 milhões, assegurando um saldo positivo acima dos 3 mil milhões. No entanto, um estudo da Boston Consulting Group para a Fundação BPI La Caixa alertava que, se nada mudar até 2050, o setor poderá perder entre 4 e 5 mil milhões de euros devido à escassez de matéria-prima, à falta de competitividade e aos riscos naturais. Para contrariar este cenário, temos de somar novos rendimentos, como créditos de carbono ou de biodiversidade, compatibilizando-os com projetos ligados à floresta e à agricultura regenerativa. Estes instrumentos devem, por exemplo, apoiar o montado e também projetos mistos de eucalipto com floresta autóctone. Importa também evitar regulamentos complexos ou moralistas que nos isolem. Devemos acompanhar a regulação internacional e a evolução em países com maior escala, como Espanha, sob pena de perdermos mais uma oportunidade.

A terceira dimensão estratégica é apoiar o desenvolvimento das principais fileiras florestais, celebrando acordos de longo prazo que assegurem previsibilidade, atraiam investimento e garantam maiores áreas sob gestão. No caso do montado, importa apoiar a densificação dos sobreiros para aumentar a matéria-prima e validar a investigação em torno dos créditos de carbono. Na pasta e papel, deve viabilizar-se a substituição de áreas menos produtivas por novas áreas de matos ou incultos, desde que as menos produtivas sejam convertidas em projetos com transformação de paisagem, com responsabilização das empresas. É igualmente fundamental apoiar a investigação já desenvolvida sobre créditos de carbono e sobre novas utilizações em produtos duradouros. Quanto ao pinho, é essencial estimular a incorporação de mais madeira reciclada no processo produtivo da indústria do mobiliário e continuar a investir na investigação sobre a resina e as suas múltiplas utilizações.

Portugal tem feito progressos importantes na prevenção florestal, com mais investimento em planeamento, em faixas de gestão de combustível, em meios técnicos e humanos para o ICNF e no cadastro florestal. Mas, sem economia, a floresta continuará a não ser vista como um ativo, sendo antes encarada como problema, sobretudo em anos de grandes incêndios. A melhor forma de proteger a floresta e de incentivar o interior é com mais economia.

Por Duarte Cordeiro e Tiago Centeno, Partners na Consultora Shiftify

Nota: Este artigo foi publicado originalmente na edição nº 16 da revista My Planet, em novembro de 2025.