Está debaixo dos nossos pés, é invisível a olho nu e pode estender-se por 110 mil biliões de quilómetros. Um estudo publicado na revista Science criou o primeiro mapa global de uma das principais redes de fungos subterrâneos, revelando uma infraestrutura viva que liga plantas, solos e clima à escala planetária.
Uma colher de chá de solo saudável pode conter até dez metros de filamentos fúngicos. São estruturas microscópicas, demasiado finas para serem vistas a olho nu, mas que, multiplicadas à escala do planeta, atingem uma dimensão difícil de imaginar: cerca de 110 mil biliões de quilómetros. Dispostos em linha, seriam suficientes para percorrer quase mil milhões de vezes a distância entre a Terra e o Sol.
A estimativa resulta de um estudo publicado na revista Science, no qual uma equipa internacional produziu o primeiro mapa global da distribuição e da densidade das redes formadas por fungos micorrízicos arbusculares. Estes organismos vivem associados às raízes das plantas e formam uma infraestrutura subterrânea que transporta carbono, água e nutrientes.
Para além de revelar a dimensão desta rede, o estudo mostra onde ela é mais abundante e abre novas possibilidades para compreender o seu papel na circulação do carbono e na saúde dos solos. Ao tornar visível esta infraestrutura subterrânea, os investigadores esperam melhorar o conhecimento sobre a forma como os ecossistemas respondem às alterações no uso do território e às alterações climáticas.
Uma parceria com centenas de milhões de anos
Os fungos micorrízicos arbusculares não produzem os cogumelos que habitualmente associamos ao mundo dos fungos. Vivem sobretudo no solo e no interior das raízes, estendendo para além delas uma rede de filamentos muito finos, chamados hifas.
É através desta rede que se estabelece uma relação de benefício mútuo. As plantas fornecem aos fungos uma parte do carbono que captam da atmosfera pela fotossíntese, sob a forma de açúcares. Em troca, os fungos exploram volumes de solo que as raízes, por si só, dificilmente alcançariam, recolhendo água e nutrientes essenciais, como o fósforo e o azoto.
Esta parceria terá sido decisiva para a expansão das primeiras plantas em terra firme, há centenas de milhões de anos. Continua hoje presente em cerca de 70% das espécies vegetais terrestres, das ervas às árvores e às culturas agrícolas, sustentando a produtividade das plantas, a circulação de nutrientes e a capacidade de recuperação dos ecossistemas.
Em Portugal, falta ainda conhecer o que existe
A dificuldade em proteger o mundo subterrâneo começa pela ausência de informação. Estima-se que existam cerca de 2,5 milhões de espécies de fungos no planeta, mas apenas aproximadamente 155 mil foram descritas pela ciência.
Em Portugal, continua por determinar quantas espécies existem, onde se encontram e qual o seu estado de conservação. Parte da informação disponível permanece dispersa ou guardada em coleções biológicas que ainda não foram digitalizadas.
A revisão da Estratégia Nacional de Conservação da Natureza e Biodiversidade 2030, aprovada em junho de 2026, procura começar a preencher essa lacuna. O documento prevê a elaboração do primeiro inventário nacional de fungos e da primeira Lista Vermelha portuguesa dedicada a estes organismos, a publicar até 2030 segundo os critérios da União Internacional para a Conservação da Natureza.
Está previsto que o trabalho dê prioridade às espécies com funções ecológicas críticas, nomeadamente os fungos micorrízicos e decompositores, e às que possuem valor económico para as comunidades locais. Coordenado pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, deverá envolver investigadores, organizações não governamentais e contributos da ciência cidadã.
É um passo que reconhece uma evidência durante demasiado tempo ignorada: conhecer a biodiversidade de um território não é apenas identificar as espécies que conseguimos observar. É também compreender as relações invisíveis que permitem que o solo permaneça vivo, que as plantas cresçam e que os ecossistemas continuem a funcionar.
O novo mapa global oferece-nos uma primeira imagem dessa infraestrutura subterrânea. A sua verdadeira importância, porém, não está apenas nos números extraordinários que revela. Está em mostrar que uma parte decisiva da vida na Terra se desenrola num lugar que raramente vemos e que, precisamente por isso, temos protegido pouco.