Farejar a biodiversidade

24 de Agosto 2026

Os cães podem ser aliados eficientes, precisos e não invasivos em projetos de recolha de dados essenciais para a conservação de espécies em risco. O seu faro apurado transforma-se, assim, numa poderosa ferramenta ao serviço da biodiversidade.

 

Há espécies muito difíceis de observar e isso pode ser um entrave à sua proteção. São animais que não toleram a presença humana, preferindo os locais mais inacessíveis. Mas também podem pertencer a espécies com populações tão reduzidas que encontrá-los é como procurar uma agulha num palheiro. Para os investigadores envolvidos em programas de monitorização, que procuram perceber onde estão e como se distribuem, o desafio é enorme. Um cão de deteção pode revelar-se, nestes casos, o colega de trabalho ideal.

Graças ao seu olfato extraordinariamente apurado, o melhor amigo do homem é capaz de localizar vestígios de determinadas espécies que os sentidos humanos seriam incapazes de detetar. As mesmas qualidades que fazem dos cães exímios caçadores têm, assim, sido usadas nas últimas décadas em favor da conservação da natureza, com excelentes resultados.

Hoje, os chamados wildlife detection dogs (cães de deteção da vida selvagem) são utilizados em projetos de investigação e monitorização um pouco por todo o mundo.

Os superpoderes de um cão

A principal vantagem está no nariz. Um cão treinado consegue identificar odores específicos em concentrações muito reduzidas e segui-los mesmo quando o animal que os produz não está à vista. Esta capacidade torna-se particularmente útil para espécies raras, discretas, camufladas ou difíceis de observar diretamente, sobretudo em habitats densos ou de difícil acesso.

Os cães podem também cobrir grandes áreas em menos tempo e, em determinadas situações, encontrar mais vestígios do que é possível através de outros métodos.

Outra aplicação importante é a deteção de espécies invasoras, sobretudo numa fase inicial, quando a intervenção pode ser mais eficaz.

Do pelo às fezes: tudo pode ser uma pista

Um cão de deteção não precisa de encontrar o animal para provar que ele está ou esteve num determinado local. Pode ser treinado para localizar fezes, urina, penas, pelos, ovos, ninhos, carcaças ou outros vestígios biológicos. E isso não é pouco.

Uma amostra de fezes, por exemplo, pode revelar não apenas a presença de uma espécie, mas também informação sobre a dieta ou o estado de saúde do animal. A análise do ADN pode ainda permitir identificar o indivíduo e o seu sexo e fornecer dados importantes para conhecer e acompanhar as populações ao longo do tempo. Quando são analisadas amostras de vários animais, os dados podem ainda ajudar a estudar características da população, como a diversidade genética, o grau de parentesco entre indivíduos ou a sua dimensão efetiva.

Projetos em que os cães fizeram a diferença

São muitos os exemplos que evidenciam o potencial desta técnica. A Nova Zelândia tem a mais longa tradição de utilização de cães para fins de conservação. No final do século XIX, o faro canino ajudou a localizar exemplares de cácapo, uma espécie endémica rara e ameaçada por predadores, permitindo transferi-los para ilhas onde pudessem reproduzir-se em segurança.

Na Austrália, dois cães de deteção treinados pelo Zoo de Victoria ajudaram a localizar novos exemplares de um réptil que, em 2023, tinha sido redescoberto mais de meio século depois do último avistamento confirmado. Daisy e Kip localizaram 13 dragões sem orelhas (Tympanocryptis pinguicolla) em tocas até então desconhecidas. Não havia registos confirmados da espécie desde 1969. Atualmente, estão a ser tomadas medidas para recuperar a população deste lagarto, considerado Criticamente em Perigo.

Um projeto de conservação na Argentina, iniciado em 2007, recorreu a equipas com cães treinados para monitorizar a presença de espécies carnívoras como pumas, jaguares e cães selvagens. Os cães de deteção foram treinados para localizar excrementos destas espécies, ajudando os investigadores a perceber onde se concentravam e como se movimentavam. A partir desses dados, foi possível definir um corredor biológico de cerca de 400 mil hectares que favorece a mobilidade das espécies e minimiza o conflito entre a presença humana e a vida selvagem.

Farejar à portuguesa

Também há cães portugueses treinados para objetivos de conservação. A Dogs for Nature nasceu na sequência de uma experiência iniciada em Portugal em 2013, quando uma equipa internacional do programa Conservation Canines procurou um cão local para integrar um projeto. Desde então, a Dogs for Nature tem participado em programas de conservação internacionais. Os seus cães já “farejaram” cerca de 15 espécies, em vários países, incluindo lobos, texugos, tartarugas, tigres, roedores, lagartos e o emblemático lince-ibérico.

A Rewilding Portugal tem também um cão dedicado à deteção de vestígios de lobo-ibérico, de lince-ibérico e de gato-bravo.

No terreno, o trabalho destes cães combina ciência, treino e cooperação. O seu extraordinário olfato, aliado à relação de confiança que estabelecem com os seres humanos, permite encontrar aquilo que a natureza dificilmente deixa ver e transformar esses vestígios em conhecimento capaz de ajudar a proteger espécies ameaçadas.