O professor Pedro Bingre do Amaral faz uma análise da história da floresta em Portugal e dos fatores que conduziram à realidade atual. Mas também aponta caminhos de futuro. Na sua opinião, a compartimentação da paisagem é uma das estratégias mais eficazes para reduzir o risco de incêndio e restaurar o equilíbrio ecológico.

O agravamento dos incêndios florestais nas últimas décadas deve ser encarado como o prolegómeno de uma nova era do território rural, moldada não apenas pelas alterações climáticas, mas também — e sobretudo — pela nova realidade socioeconómica. O despovoamento, o abandono agrícola e a transformação das dinâmicas produtivas alteraram profundamente a relação das comunidades com o espaço natural. As chamas que hoje consomem vastas áreas de floresta são, simultaneamente, um sinal dos tempos e um apelo à reconstrução da paisagem, desafiando o país a repensar a forma como gere, ocupa e valoriza o seu território.
A história da floresta portuguesa é, em grande medida, a história da relação do ser humano com o território. Desde a Idade do Ferro, iniciada há quase três milénios, que a pressão humana sobre os recursos florestais se faz sentir de forma intensa. A introdução da agricultura e da pastorícia, aliadas ao uso da madeira para a metalurgia e construção, desencadearam um processo de desflorestação sistemática. As florestas autóctones — compostas por carvalhos, sobreiros, azinheiras e outras espécies nativas — foram sendo substituídas por campos agrícolas e pastagens, alterando profundamente a estrutura ecológica do território.
Foi apenas na segunda metade do século XX que Portugal iniciou a chamada transição florestal, marcada pela recuperação gradual da cobertura arbórea após séculos de desflorestação. Este processo foi possível graças a profundas transformações tecnológicas e económicas, entre as quais se destaca a invenção e difusão dos adubos de síntese, que revolucionaram a agricultura moderna. Ao permitirem substituir o estrume natural por fertilizantes químicos, estes adubos tornaram possível prescindir de grandes rebanhos destinados à produção de estrume, reduzindo a dependência do gado caprino — historicamente um dos principais agentes de degradação das florestas mediterrânicas. Assim, vastas extensões do território, antes sujeitas à pressão do pastoreio, ficaram disponíveis para a regeneração natural e para novas plantações. Contudo, essa recuperação baseou-se sobretudo em empreendimentos silvícolas focados no pinheiro-bravo e no eucalipto, destinados à produção de madeira e pasta de papel. Ao mesmo tempo, o abandono agrícola e o declínio económico das zonas rurais levaram à proliferação espontânea de espécies arbustivas pirofíticas — como as giestas, urzes e tojos — que passaram a ocupar tanto as folhas de cultura derrelictas como inúmeras plantações florestais abandonadas. Estas formações vegetais, altamente inflamáveis, criam uma paisagem contínua e densa de combustível fino e seco, que tem sido a principal causa dos megaincêndios contemporâneos em Portugal.
Daqui resultou os incêndios florestais se terem tornado uma das maiores ameaças à sustentabilidade do território. Todos os anos ardem entre dezenas a centenas milhares de hectares, afetando não só a floresta, mas também os solos, a biodiversidade e as comunidades humanas. Após os incêndios, a regeneração da floresta autóctone — composta por espécies como o carvalho-cerquinho, o medronheiro, o castanheiro, o sobreiro e a azinheira — é essencial para restaurar o equilíbrio ecológico. Estas espécies estão adaptadas ao clima mediterrânico e possuem mecanismos naturais de regeneração, como a rebentação a partir das raízes ou da base do tronco.
Contudo, a recuperação natural nem sempre é suficiente. Em muitas áreas afetadas, o solo encontra-se empobrecido e sujeito à erosão, e as espécies invasoras (como as acácias) competem com as plantas nativas, dificultando a regeneração. Nestes contextos, torna-se necessária uma gestão florestal ativa e planeada — seja destinada a produção, seja de uso múltiplo — que mitigue tanto os processos erosivos como as invasões biológicas.
Uma das estratégias mais eficazes para reduzir o risco de incêndio e restaurar o equilíbrio ecológico passa pela compartimentação da paisagem. O território deve ser reorganizado em mosaicos multifuncionais, integrando diferentes tipos de uso e cobertura do solo, onde se compaginem florestas de produção com florestas autóctones de uso múltiplo, montados (de sobro, azinho e cerqueiro) com pastagens extensivas.
A recuperação da floresta portuguesa, portanto, não se limita à replantação após os incêndios; implica também a construção de uma paisagem florestal — porventura reforçada através de modelos de certificação florestal sustentável — que promovem boas práticas de gestão e garantam a compatibilização entre produção económica e conservação ecológica.
Depois de séculos de desflorestação e décadas de transformação intensa do território, o recente abandono dos campos agrícolas e das plantações florestais deixou vastas áreas ao sabor da espontaneidade ecológica e do fogo. Apostar na diversificação e compartimentação do território, com base nas espécies autóctones e nos usos multifuncionais da floresta, a par das suas vertentes produtivas, é investir num futuro onde a economia rural, a ecologia e a cultura do território possam coexistir de modo sustentável e duradouro.
Por Pedro Bingre do Amaral, Professor na Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Coimbra
Nota: Artigo publicado originalmente na edição nº 16 da revista My Planet, em novembro de 2025.