O eucalipto faz parte do imaginário florestal coletivo e contribui grandemente para o desenvolvimento ambiental, social e económico do país, pelo que merece que o conheçamos melhor.

Não existe um único português que tenha memória de um país e de uma floresta nacional sem eucalipto. Do aroma inconfundível dos piqueniques quando o vento agitava as copas das árvores, às formas esguias que ladeavam as estradas nos percursos de carro para as férias de verão. Dos rebuçados que a avó trazia sempre no bolso do avental, à sensação de frescura e alívio do bálsamo que a mãe nos esfregava no peito em noites de tosse e nariz entupido. Dos parques nacionais às plantações de produção, das grandes cidades às aldeias mais remotas.

Ainda que os primeiros registos conhecidos refiram que o eucalipto chegou à Europa em 1770, a partir de exemplares recolhidos na costa australiana nas famosas viagens do explorador inglês James Cook (foi cientificamente descrito em Inglaterra, em 1788, pelo botânico francês Charles-Louis L’Héritier), é bastante provável que os primeiros europeus a se terem cruzado com este género tenham sido exploradores portugueses, logo no início do século XVI, um pouco mais a norte, quando chegaram a Timor. Isto porque há três espécies de eucalipto que são nativas desta região: E. urophylla, E. orophila e E. alba. Não existem registos, mas há uma possibilidade bastante concreta de terem sido os portugueses a levar sementes destas espécies para outros locais, nomeadamente para o Brasil.

Fácil adaptação

Em Portugal, os primeiros exemplares terão sido plantados entre 1820 e 1830 – o primeiro registo data de 1829, numa plantação na Quinta da Formiga, em Vila Nova de Gaia. Existem evidências de que em 1850 já era frequente a sua utilização nos principais parques e jardins nacionais, onde se destacavam pela diversidade de formas, de porte, das folhas, cascas, flores, frutos e aromas.

A sua implementação no território nacional ficou a dever-se, numa primeira fase, a questões de prestígio paisagístico, uma vez que era a árvore da moda no século XIX e muitos jardins faziam questão de ter as espécies recentemente descobertas. D. Fernando II plantou alguns eucaliptos em Sintra, incluindo um Eucalyptus obliqua no Parque da Pena, por ocasião do seu casamento com Elise Hensler, a Condessa d’Edla, em 1869.

A fácil adaptação ao nosso clima de algumas das espécies, e o seu consequente crescimento, levou a que a sua madeira começasse também a ser usada como lenha e em carpintaria. O primeiro destino claramente de produção comercial do eucalipto foi para travessas de caminho-de-ferro. As primeiras plantações com essa finalidade foram efetuadas em 1870, pela Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses.

Sucesso industrial

Já em pleno século XX, o eucalipto assumiu a sua utilização mais importante – que se mantém até hoje –, na produção de pasta para papel.

O sucesso industrial desta árvore verifica-se já na segunda metade do século, quando, em 1957, se inicia a produção de pasta de eucalipto através do inovador processo kraft (separação química das fibras da madeira pelo processo ao sulfato), na fábrica da Companhia Portuguesa de Celulose em Cacia, fundada em 1953 por Manuel Santos Mendoça, e que hoje é parte da The Navigator Company.

A espécie mais utilizada em Portugal é o Eucalyptus globulus – também conhecido como eucalipto comum –, pelas suas características de adaptabilidade às condições edafoclimáticas (relativas ao solo e ao clima) do país, mas também por ter, reconhecidamente, a melhor fibra do mundo para fazer papel, proporcionando excelentes valores de densidade da madeira e rendimento em pasta.

O eucalipto representa uma importante fonte de riqueza nacional. Contribui para a dinamização da economia rural, permite a criação e manutenção de milhares de postos de trabalho, remove da atmosfera grandes quantidades de carbono e é a base de uma indústria responsável e sustentável, com alto valor acrescentado para o país. É um “nacional” de mérito e direito, apesar de não ter nascido cá.

Porque não é o Eucalyptus globulus plantado por toda a Europa, em vez de quase exclusivamente em Portugal e Espanha? Não é porque os outros países não queiram, mas sim porque não podem: o E. globulus é uma espécie de climas temperados, fortemente sensível às temperaturas negativas e aos stresses hídricos prolongados, e é por isso que se dá tão bem na Península Ibérica, em vez de na Alemanha, na Finlândia ou na Noruega.