É o mais bem conservado pedaço de uma floresta primitiva com 20 milhões de anos. Por isso a floresta Laurissilva da Madeira, que ocupa 20% do total da ilha portuguesa, é Património da Humanidade.

É fácil perceber por que razão, há exatamente seiscentos anos, em 1420, os navegadores portugueses que a descobriram lhe chamaram “Ilha da Madeira”. Estava toda coberta por um denso arvoredo, um tipo de floresta húmida subtropical que só existe na Macaronésia, a região formada pelos arquipélagos da Madeira, Açores, Canárias e Cabo Verde.

Hoje, sabe-se que a floresta Laurissilva da Madeira constitui o remanescente de um coberto florestal primitivo, dos períodos Miocénico e Pliocénico da Época Terciária, composto essencialmente por árvores do tipo das lauráceas. São 15 mil hectares com mais de 11 milhões de árvores, 90% das quais são floresta primária, ou seja, que não sofreu alterações provocadas pelo Homem e se encontra no estado mais natural possível. É por isso que, em 1992, o Conselho Europeu a considerou Reserva Biogenética e, sete anos depois, foi classificada pela UNESCO como Património da Humanidade.

A sua história, no entanto, recua 20 milhões de anos, quando a floresta ocupava toda a área do Sul da Europa e Norte de África, antes de as alterações climáticas provocadas pela formação do Mediterrâneo a terem confinado às regiões insulares, onde, devido à menor flutuação climática proporcionada pelo Atlântico, conseguiu sobreviver e prosperar.

Uma espécie de floresta encantada, com árvores e animais que não se encontram em nenhuma outra parte do mundo. E que tem, no Parque Natural da Madeira, a sua mancha mais bem conservada, verde durante todo o ano.

Proteção da fauna, da flora e da memória

A palavra Laurissilva, formada a partir do latim “laurus” e “silva”, quer dizer “floresta de loureiro”, mas esta espécie partilha as encostas íngremes viradas a norte e os vales do interior da ilha com outras árvores da família das Lauráceas, como o Til, o Vinhático e o Barbusano, bem como espécies endémicas como o Mocano, o Pau Branco e o Folhado. Um ecossistema único, onde se encontra igualmente fauna endémica, como o Pombo-Trocaz (Columba trocaz) e a Freira-da-Madeira (Pterodroma madeira). É por isso que constitui também Zona de Proteção Especial-ZPE, no âmbito da Diretiva Aves.

São espécies que podem ser apreciadas durante as visitas guiadas à Floresta Laurissilva, uma das atividades de educação e sensibilização ambiental do Parque Natural, realizadas ao longo de percursos vulgarmente designados de Levadas, os canais que transportam água no interior da ilha. Aliás, a Floresta Laurissilva é tradicionalmente conhecida como “produtora de água”, e com razão. Retém e condensa a humidade dos ventos dominantes de Nordeste e proporciona abundantes caudais de que dependem a irrigação dos campos agrícolas e o abastecimento de água aos centros urbanos.

É também, na memória cultural madeirense, considerada uma fonte de remédios caseiros. Razão por que o Parque Natural tem vindo a recolher e preservar saberes ancestrais associados às plantas que fazem parte do património destas comunidades e desta floresta… mágica.