Normalmente mal-amadas, as cobras são animais extraordinários, que merecem que nos esforcemos por gostar delas.

As cobras não servem apenas para fazer as pessoas cair em tentação e comer maçãs proibidas. Elas desempenham um papel importante nos ecossistemas, por exemplo, controlando roedores e pragas. Há quem goste delas, mas a maioria das pessoas tem-lhes medo. Um medo irracional e injustificado, com direito a nome próprio: ofiofobia ou ofidiofobia.

Se é o seu caso, sugerimos que se mude para a Antártida, Islândia, Irlanda, Gronelândia ou Nova Zelândia: são os únicos locais do planeta onde não há cobras. No resto, há mais de três mil espécies espalhadas um pouco por todo o lado. Cerca de 600 espécies são venenosas, mas apenas 200 são capazes de matar ou ferir significativamente um ser humano. A maioria das cobras vive em terra, mas existem cerca de 70 espécies que vivem nos oceanos Índico e Pacífico.

As cobras não têm pálpebras. Nem ouvidos externos. Mudam de pele várias vezes ao ano. E cheiram com a língua. Com a sua língua bifurcada.

Têm maxilares tão flexíveis que lhes permitem abocanhar presas até três vezes maiores que a sua própria cabeça. Uma habilidade que lhes dá algum jeito, uma vez que quase todas as espécies conhecidas engolem as suas presas inteiras.

As cobras são animais de sangue frio. O seu corpo está coberto de escamas, que servem para conservar a humidade em climas áridos e para reduzir o atrito à medida que o animal se movimenta: até algumas espécies que não têm escamas na maioria do corpo, têm-nas na barriga. Mas mesmo sem pernas, pés ou sapatos de corrida, as cobras conseguem ser muito rápidas; a mamba-negra, por exemplo, não contente com ser uma das cobras mais venenosas do continente africano, desliza a uma velocidade de mais de 11 km/h.

Não é suficientemente rápido para si? Saiba então que há cinco espécies de cobras que conseguem voar. Pronto, voar talvez não seja o termo mais correto, uma vez que não têm a capacidade de ganhar altitude. Mas usam a velocidade da queda livre e as contorções dos seus corpos para “travar” o ar e gerar sustentação, em autênticas manobras de pilotagem: quando se prepara para descolar, a cobra voadora desliza até à ponta de um ramo da árvore onde se encontra  e oscila numa forma de J; de seguida, impulsiona-se com a metade inferior do corpo, forma rapidamente um S e achata-se até quase duas vezes a sua largura normal, dando ao corpo normalmente tubular um formato de C côncavo, capaz de reter o ar; ao ondular para a frente e para trás, a cobra consegue, inclusive, curvar.

Conheça a víbora-cornuda
A ilustração deste artigo, que pode ver em cima, foi criada exclusivamente para a The Navigator Company pela ilustradora científica Mafalda Paiva, e representa uma víbora-cornuda (Vipera latastei). É uma espécie que se encontra na maior parte da Península Ibérica e que era frequente em Portugal, mas onde, nos últimos tempos, tem vindo a sofrer uma redução (tem classificação de “Vulnerável” no Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal).

É facilmente identificável pela cabeça triangular, pela extremidade do focinho proeminente (o “corno” que lhe dá nome), pelas manchas escuras em ziguezague ao longo da região vertebral e pelo “V” invertido formado por duas manchas escuras na parte de trás da cabeça.

É venenosa, mas não ataca o Homem a menos que se sinta ameaçada. O seu veneno pode causar sintomas de gravidade distinta (dor local, taquicardia, hipotensão…), mas raramente é letal, ainda que haja riscos acrescidos no caso de crianças, idosos e indivíduos debilitados.

A víbora-cornuda habita as propriedades da Navigator na Serra de Monchique.