“Porque não a abandonará?”

26 de Março 2026

Henrique Pereira dos Santos deixa a pergunta: se os grandes incêndios dependem, essencialmente, da meteorologia e da quantidade e estrutura dos combustíveis finos, por que razão não gerimos este último factor – o único onde podemos actuar eficazmente?

O título deste artigo é retirado de uma citação de António de Oliveira Salazar, da sua tese “A questão cerealífera: o trigo”, 1916.

“De modo que este país da vinha e da oliveira, das frutas magníficas e das flores preciosas, podendo oferecer nos grandes mercados, com antecedência de bastantes dias, os produtos mais caros e mais raros, de maior procura e consumo, vive agarrado à miséria da sua cultura de cereais. Porque não a abandonará?”

Não me interessa a discussão sobre a produção de cereais, mas sim o facto de Salazar vir a ser, mais tarde, o responsável político pela campanha do trigo.

Como explicar a distância entre as suas ideias académicas, expressas na tese de onde é retirada a citação, que é uma crítica feroz à política de protecção da produção de cereais que Elvino de Brito materializou no fim do século XIX, e a sua prática política?

É que a realidade insiste em se impor, como e quando se lhe apraz.

Este princípio deveria estar no centro da discussão sobre a gestão do fogo, para evitarmos perder tempo e recursos naquilo que não é muito relevante, como ignições — apenas uma ignição foi suficiente para termos 60 mil hectares ardidos, este ano, e menos de vinte ignições terão dado origem a mais de 200 mil hectares ardidos, muito provavelmente —, ordenamento administrativo do território, estrutura da propriedade e outras coisas que tais.

O que sabemos sobre gestão do fogo é que os grandes incêndios dependem, essencialmente, da meteorologia — sobretudo vento e humidade — e da quantidade e estrutura dos combustíveis finos.
O combate, em condições meteorológicas extremas, aquelas em que arde a maior parte da área anual, tem uma eficácia relativa, porque o fogo progride em condições que estão para lá da capacidade de extinção.

Se assim é, e sabendo que nos outros factores não conseguimos actuar eficazmente, por que razão não somos capazes de gerir a quantidade e estrutura dos combustíveis finos?

No fundo, pelas mesmas razões que levaram Salazar a não abandonar as políticas de protecção à produção de cereais: as circunstâncias em que Salazar escreve a sua tese de 1916 não são as mesmas dez a doze anos depois, em que o peso crescente dos nacionalismos na Europa e a guerra no horizonte o obrigam a considerar de outra forma o abastecimento alimentar do país.

Por séculos, a agricultura e a pastorícia geriram a elevada produtividade primária do Noroeste peninsular, usando o fogo como ferramenta essencial para evitar o fogo selvagem, mas essa gestão, se sempre foi difícil e pouco compensadora, hoje passou a ser um peso nas contas de exploração das actividades que podem gerir combustíveis finos.

Há, nestas circunstâncias, três hipóteses de mercado racionais. A mais frequente consiste no abandono da terra e, consequentemente, dos laços que ligam o dono à terra, dando origem à desvalorização que se vai reflectir no desinteresse pelo exercício dos direitos de propriedade (a estrutura de propriedade reflecte a economia, não a condiciona de forma imperativa).

Outras vezes o produtor adapta-se ao fogo selvagem, migrando para uma economia extractiva, que reduz os custos de gestão, diminuindo a produtividade em benefício de um saldo final em que a receita se aproxima do lucro, por ausência de despesas de gestão.

A gestão mantém-se, ou intensifica-se, quando o resultado da exploração da terra consegue ser positivo, mesmo internalizando os elevados custos de gestão dos combustíveis finos.

Se queremos voltar a ter controlo sobre o fogo, precisamos de melhorar o combate ao fogo florestal no sentido de o tornar mais profissional e mais inteligente, o que significa ter um combate que sabe criar e aproveitar oportunidades — ao longo do ano ou durante a progressão de um incêndio —, assente numa paisagem em que as oportunidades se multiplicam.

Não me parece que isso possa ser feito de outra maneira que não seja com os contribuintes a pagar o serviço que pretendem que a economia preste, através de co-pagamento da gestão de combustíveis finos.

É sem dúvida uma péssima solução e não resolve todo o problema, mas tem duas características relevantes: é simples de executar e não há outra solução que consiga produzir resultados de forma mais rápida e eficaz.

Por Henrique Pereira dos Santos, Arquiteto paisagista

Nota 1: Este artigo foi publicado originalmente na edição nº 16 da revista My Planet, em novembro de 2025.
Nota 2:  Por opção do autor, o texto não segue as regras do acordo ortográfico em vigor.