Incêndios, uma vulnerabilidade nacional a contrariar

16 de Fevereiro 2026

Há uma série de fragilidades que contribuem para o estado de vulnerabilidade do território português aos incêndios florestais. Paulo Pimenta de Castro enumera-as e garante que, se fossem corrigidas, não só haveria menos área ardida, como as zonas silvícolas seriam um investimento seguro e rentável.

No presente ano [N.R. 2025], a par das últimas décadas, Portugal mantém significativa vulnerabilidade aos incêndios florestais, arriscando novo recorde em área ardida absoluta na União Europeia e área ardida relativa em termos globais.

Para esta vulnerabilidade nacional contribui o despovoamento, com o registo de maiores áreas ardidas em regiões de mais baixa densidade populacional, preocupante num país onde predominam os ecossistemas humanizados. Acresce a esta vulnerabilidade a prática de comportamentos de risco no que diz respeito ao uso do fogo e à reduzida proximidade de muitas das infraestruturas das áreas arborizadas, incluindo zonas residenciais.

São ainda fatores de vulnerabilidade um território dominado pelo abandono e desordenamento, com particular destaque nas regiões de minifúndio e nas contínuas e extensas áreas de produção de madeira para trituração, designadamente de eucalipto e de pinheiro-bravo, agora sob a influência acrescida das alterações climáticas. Ao nível da paisagem persiste uma forte resistência a alterações que potenciem territórios mais seguros, sendo a decisão política e administrativa ainda muito condicionada pelo sector silvo-industrial. Este facto compromete não só a segurança e a saúde das populações, como também a necessidade da redução de emissões de gases de efeito estufa e os futuros abastecimentos industriais.

Face às décadas anteriores, nos últimos anos registam-se marcadas diferenças numa maior proporção de área ardida em povoamentos de produção silvícola face a áreas ocupadas por matos, a par da maior ocorrência de fenómenos meteorológicos associados a ondas de calor mais frequentes, assim como à maior recorrência e intensidade de ventos continentais, mais secos.

Embora seja de assinalar o significativo impacto das ignições associadas aos fogos intencionais, continua a dominar o descuido no uso do fogo, ou seja, os incêndios não intencionais. Em ambos os casos, a solução passa por uma maior capacidade de vigilância. É muito importante, porém, assegurar uma gestão efetiva e eficaz dos espaços silvícolas, com destaque para os destinados à produção intensiva de madeira, agilizando uma satisfatória compensação dos bens e da diversidade de serviços proporcionados por tais espaços. Neste âmbito, tarda a remuneração dos serviços dos ecossistemas florestais, a par da regulação dos mercados de bens, como o das madeiras e da cortiça, em especial nas fileiras dominadas por grandes empresas, onde a formação dos preços à produção, sobretudo privada, denota uma concorrência imperfeita, ou seja, onde a procura industrial define preços unilateralmente.

Finalmente e ainda no que respeita à vigilância das áreas arborizadas, regista-se o efeito pernicioso do desaparecimento do corpo nacional de guardas-florestais no Continente e o paulatino desmantelamento da autoridade florestal do Estado. Se todas estas fragilidades fossem corrigidas, não só haveria menos área ardida, como as zonas silvícolas seriam um investimento seguro e rentável.

Por Paulo Pimenta de Castro, Engenheiro Silvicultor

Nota: Este artigo foi publicado originalmente na edição nº 16 da revista My Planet, em novembro de 2025