Uma bússola invisível: como os animais se orientam nas migrações

13 de Abril 2026

Todos os anos, com a chegada da primavera, o céu volta a encher-se de asas conhecidas. É o regresso de andorinhas, cegonhas e de tantas outras espécies de aves. Tartarugas, baleias ou salmões empreendem igualmente verdadeiras odisseias migratórias. Mas como sabem os animais, com tamanha precisão, para onde ir?

A resposta não é simples, nem única. A ciência mostra que a orientação nas migrações resulta de vários mecanismos combinados, que funcionam em conjunto, como um sistema de navegação altamente sofisticado.

O campo magnético da Terra é um dos pilares deste sistema. Diversos estudos têm demonstrado que as aves migratórias conseguem detetar a direção e a intensidade desse campo, usando-o como uma bússola interna. Um dos trabalhos mais citados, publicado em 2000 no Biophysical Journal, avançou que esta capacidade está ligada a proteínas sensíveis à luz, os criptocromos, presentes na retina das aves, permitindo-lhes percecionar o campo magnético como um padrão visual. Mais recentemente, em 2021, uma equipa da Universidade de Oldenburg identificou uma proteína específica, o criptocromo 4, nos olhos de aves migratórias, reforçando esta hipótese. Os resultados foram publicados na revista científica Nature.

Mas o magnetismo não é o único recurso. Durante o dia, as aves também utilizam o sol como referência, ajustando a rota com base na sua posição. Este mecanismo foi demonstrado em experiências clássicas de Gustav Kramer, nos anos 50, que mostraram que aves mantidas sob luz artificial, com o “sol” deslocado, alteravam a direção do voo.

Já durante a noite, muitas espécies recorrem às estrelas. Experiências conduzidas por Stephen Emlen, nos anos 60, com aves em planetários artificiais, demonstraram que estas orientam o voo com base na rotação do céu noturno, e não numa estrela fixa.

Este conjunto de “pistas” cria um sistema redundante e altamente fiável. Se uma falha, outras entram em ação.

Memória, experiência e sinais do ambiente

A orientação não é apenas inata. Em muitas espécies, a experiência desempenha um papel decisivo. Estudos com aves como as cegonhas mostraram que indivíduos jovens têm rotas mais erráticas, enquanto os adultos seguem trajetos mais diretos, sugerindo aprendizagem ao longo do tempo.

No caso das tartarugas marinhas, a precisão é ainda mais surpreendente. Um estudo publicado na revista Current Biology, em 2008, demonstrou que estas conseguem memorizar a “assinatura magnética” das praias onde nascem, usando-a décadas mais tarde para regressar ao mesmo local para desovar.

As baleias, por sua vez, que percorrem milhares de quilómetros entre zonas de alimentação e reprodução, parecem combinar memória espacial com referências acústicas e geográficas.

A tudo isto somam-se sinais ambientais, como correntes oceânicas, temperatura, ventos dominantes ou até cheiros. O salmão-do-Atlântico, por exemplo, usa o olfato para regressar ao rio onde nasceu.

As migrações são, assim, uma das demonstrações mais impressionantes de orientação no mundo natural. Mais do que um instinto simples, trata-se de um sistema complexo, que combina informação genética, aprendizagem e leitura do ambiente. E que depende, em última análise, de um fator essencial: a estabilidade dos sinais naturais que estes animais aprenderam a seguir.

Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), milhares de milhões de aves atravessam continentes todos os anos, muitas percorrendo mais de 10 mil quilómetros com elevada precisão. Não é por o fenómeno ser comum, contudo, que deixa de nos deslumbrar. De cada vez que uma andorinha regressa ao beiral da nossa casa, está a revelar um feito extraordinário de orientação, repetido geração após geração. Sem mapas, sem tecnologia, mas com uma eficácia que nos deixa maravilhados.