Mal-entendidos sobre as florestas e os incêndios

5 de Fevereiro 2026

José Miguel Cardoso Pereira e Aswin Thomas, do Centro de Estudos Florestais do Instituto Superior de Agronomia, explicam por que razão é simplista procurar espécies culpadas pelo problema dos incêndios ou capazes de o resolver. A questão é bem mais complexa e existem fatores com um peso maior quando se trata de vulnerabilidade ao fogo.

Até ao fim de setembro de 2025 arderam mais de 250.000 hectares em Portugal Continental, o que aconteceu apenas pela quinta vez nos últimos 50 anos. Quatro destas vezes ocorreram nos últimos 25 anos, indiciando uma tendência muito preocupante. O fogo afeta de modo diferenciado os diversos tipos de ocupação do solo — em anos moderados a maior parte da área ardida é de matos e pastagens, enquanto nos anos extremos arde sobretudo floresta. Em 2025, apesar da grande extensão de área ardida, menos de 50% corresponde a floresta, o que torna o ano algo atípico.

As análises da incidência do fogo em função do tipo de floresta e das espécies afetadas têm de ser lidas com cautela, porque há grandes diferenças na intensidade de gestão e na estrutura vertical da vegetação, que cremos serem mais decisivas para a suscetibilidade ao fogo e à severidade dos seus efeitos do que a identidade das espécies que compõem a floresta.

Um estudo em curso no CEF/ISA sobre a severidade dos efeitos do fogo nas copas das florestas em Portugal ilustra a questão. Usámos imagens de satélite para classificar as copas de florestas percorridas pelo fogo nas classes “verde”, “chamuscada” e “queimada” e analisámos os quatro tipos de floresta mais comuns nas áreas afetadas: pinhais, eucaliptais, outros carvalhos (autóctones, sobretudo caducifólios) e outras folhosas (sobretudo ribeirinhas e castanheiro). A classificação utilizada permite não só distinguir graus de severidade dos efeitos do fogo, mas também a ocorrência de fogo de superfície (deixa copas verdes e chamuscadas) e fogo de copas (as copas são queimadas). Até agora analisámos 70 incêndios com área superior a 500 ha e pelo menos 25% de cobertura florestal, abrangendo um total de 52.000 ha, provenientes de quatro anos diferentes.

Os resultados da análise revelam que o pinhal-bravo é claramente o tipo de floresta com a maior incidência de fogos de copas. Curiosamente, este tipo de fogos afeta um pouco mais a floresta de outros carvalhos do que o eucaliptal. A menor incidência de fogo de copas verifica-se nas outras folhosas, favorecidas pela sua localização ribeirinha. Pela mesma razão, esta floresta apresenta também a maior proporção de copados verdes, poupados pelo fogo. Os outros carvalhos têm a segunda maior proporção de copas verdes, que são raras nos pinhais e eucaliptais.

O caráter caducifólio de algumas espécies arbóreas torna-as menos vulneráveis ao fogo do que as espécies de folha perene, porque a renovação anual das folhas confere-lhes teores de humidade mais elevados durante o verão do que espécies perenifólias como o eucalipto e o pinheiro-bravo, em cujas copas permanece folhagem de vários anos anteriores, mais seca. Assim, poderia esperar-se que a floresta de outros carvalhos tivesse mostrado menor vulnerabilidade ao fogo de copas do que o efetivamente observado. Por outro lado, atendendo à inflamabilidade das folhas do eucalipto e à propensão da casca desta espécie para ficar pendente dos troncos, não surpreenderia que fosse afetada por uma incidência mais alta de fogo de copas.

Os dados do 6.º Inventário Florestal Nacional (2015) para os quatro tipos de floresta ajudam a interpretar os efeitos do fogo observados. A Figura 1 usa dados do 6.º IFN para as áreas de povoamentos por ocupação do sobcoberto, onde se pode ver que o estrato de combustível de superfície no eucaliptal tem uma percentagem bastante maior da sua área ocupada por folhada e solo nu, e menos por matos, do que os outros tipos de floresta. Esta situação, reconhecidamente menos desejável sob o ponto de vista da biodiversidade, ajuda a explicar a menor propensão do eucaliptal para ser afetado por fogos de copas.

Figura 1. Composição do sobcoberto dos tipos de floresta analisados, segundo dados do 6.º Inventário Florestal Nacional (2015).

 

A Figura 2, igualmente baseada em dados do 6.º IFN, apresenta números sobre a distribuição da vegetação ao longo do perfil vertical da vegetação para os pontos do inventário onde cada tipo de floresta ocorria em povoamento puro.

Figura 2. Índice de dominância do estrato arbóreo (IDEA) para os quatro tipos de floresta analisados.

 

Os valores negativos do índice de dominância do estrato arbóreo (IDEA) significam que havia maior grau de cobertura por vegetação abaixo dos 2m do que acima deste nível, verificando-se, portanto, que prepondera o estrato arbustivo. Esta dominância é menos pronunciada no eucaliptal e mais alta nas outras folhosas. O pinhal-bravo e os outros carvalhos apresentam valores de dominância da floresta pelo estrato arbustivo cerca de 50% superiores aos do eucaliptal.

É simplista procurar espécies ou tipos de floresta culpados pelo problema dos incêndios, ou capazes de o resolver. A questão é bem mais complexa do que a mera identidade das espécies e a intensidade de gestão da floresta, que condiciona a estrutura da vegetação criando descontinuidades verticais entre o combustível de superfície e a base do copado, tem um papel decisivo na determinação da vulnerabilidade da floresta ao fogo. Não se pode, também, ignorar a importância da orografia como fator condicionante quer da distribuição dos tipos de floresta, quer da sua relação com o fogo. Alguém dizia que todos os problemas complexos têm uma solução óbvia, simples… e errada. É bom que nos lembremos disto.

Há grandes diferenças na intensidade de gestão e na estrutura vertical da vegetação, que cremos serem mais decisivas para a suscetibilidade ao fogo e à severidade dos seus efeitos do que a identidade das espécies que compõem a floresta.

Por José Miguel Cardoso Pereira e Aswin Thomas, do Centro de Estudos Florestais, Instituto Superior de Agronomia

Nota: Este artigo foi publicado originalmente na edição nº 16 da revista My Planet, em novembro de 2025