No espírito de um animal, a identidade de um país

5 de Janeiro 2026

Há símbolos nacionais que respiram, correm, voam, livres e selvagens, na natureza. São animais que foram “adotados” por nações inteiras como representantes de uma identidade coletiva. E, ainda assim, muitos deles estão seriamente ameaçados.

Tal como os nossos animais preferidos traduzem, de alguma forma, a nossa personalidade ou valores individuais, também os animais que se tornaram “emblemas” de determinadas nações passaram a dizer algo sobre a alma desse povo. Ao longo da história, foram muito os países que elegeram uma espécie popular como símbolo. No caso da Austrália, o canguru; no Canadá, o castor; em Madagáscar, o lémure; nos Estados Unidos da América, a águia-de-cabeça-branca; e na Índia, o tigre-de-bengala, só para dar alguns exemplos.

Nem sempre a presença da espécie no território foi determinante. Em alguns casos, falaram mais alto as características que lhe estão associadas, como sejam a força, a resiliência, a bravura, a liberdade, a longevidade ou a sabedoria. No fundo, valores que os povos decidiram “chamar” para si próprios.

Estes símbolos de pertença e de identidade revelam uma ligação profunda entre cultura e natureza. Mesmo que não estejam na bandeira ou não tenham sido oficialmente nomeados “símbolo nacional”, eles fazem parte do património imaterial do país, constituindo um quadro de ideais partilhados. O olhar sobre cada um assume, hoje, a forma de um alerta: proteger a biodiversidade é também preservar a memória coletiva dos países e dos povos.

Um bom gigante como embaixador

Um dos exemplos mais emblemáticos desta relação de um animal com a identidade de um país é o panda-gigante, que se tornou símbolo incontornável da China. Representando valores como paz, harmonia e equilíbrio, o panda-gigante é considerado um verdadeiro tesouro nacional. Ao longo dos séculos, tornou-se também facilitador das relações entre a China e outros países, através de ofertas de exemplares a jardins zoológicos estrangeiros.

Este fofo embaixador é o protagonista da chamada “diplomacia do panda”. Uma estratégia que fomenta a cooperação e a aproximação entre a China e os seus parceiros pelo mundo, conciliando a importância da conservação da biodiversidade e a promoção da imagem nacional com o estreitamento de relações económicas. Existirão, hoje, pandas “diplomatas” – oferecidos ou emprestados pela China – em cerca de 20 países.

O rei – importado de terras longínquas

O leão surge como símbolo em vários países, mesmo sem habitar muitos desses territórios. É o caso de Inglaterra que o “adotou”, desde a Idade Média, pela força, nobreza e poder que representa. O brasão da Inglaterra tem três leões dourados que transportam, até hoje, essa herança de bravura ligada a Ricardo Coração de Leão.

O leão está também na bandeira de Espanha – apesar de o animal nacional ser o touro. E é considerado símbolo nacional na Bélgica, onde faz parte do brasão, bem como no Sri Lanka, onde surge em grande destaque na bandeira.

Por falar em animais representados na bandeira, lembramos o exemplo do México, onde a águia-real continua a recordar, bem no centro das cores do país, uma lenda asteca e a valiosa herança indígena nacional. A águia-real está também no brasão presente na bandeira da Moldávia e o grou-coroado tem lugar de honra na do Uganda

A conservação das espécies não pode ser simbólica

Paradoxalmente, muitos dos animais que se tornaram “representantes” mais ou menos oficiais de países pertencem a espécies que enfrentam, atualmente, declínios acentuados nas suas populações e até o risco de extinção. O panda-gigante é um caso paradigmático: seriamente ameaçado, foi alvo de programas de conservação que permitiram recuperar o seu estado de conservação de “Em Perigo” para “Vulnerável”. Mas, apesar dessa tendência favorável, os pandas continuam a enfrentar ameaças: a UICN (União Internacional para Conservação da Natureza) prevê que mais de 35% das florestas de bambu, nas quais habitam, desapareçam nos próximos 80 anos devido às alterações climáticas.

E o panda-gigante não é exceção: o tigre-de-bengala, a águia-de-cabeça-branca, o lémure-de-cauda-anelada e o leão sofrem, igualmente, as consequências de perdas de habitat e da caça ilegal, bem como os efeitos da crise climática.

Em Portugal, o lobo-ibérico, frequentemente apontado como animal nacional, está classificado como “Em perigo” no Livro Vermelho dos Mamíferos de Portugal Continental. É a única espécie da fauna portuguesa protegida por legislação nacional específica, estando estritamente protegido desde 1988. Mas, após mais de três décadas de proteção, a espécie continua em declínio. Embora não seja um símbolo oficial, tornou-se emblemático por ser um grande predador e uma espécie endémica com forte presença no imaginário popular.

Em muitos destes casos, o estatuto de símbolos da nação foi uma alavanca para mobilizar a opinião pública e a vontade política no sentido de “salvar” a espécie. Para além de ícones que fortalecem a identidade nacional, transformaram-se em embaixadores da causa ambiental e da urgência de proteger a biodiversidade global.

Muitos dos animais que se tornaram “representantes” mais ou menos oficiais de países pertencem a espécies que enfrentam, atualmente, declínios acentuados nas suas populações, e até o risco de extinção.