O caminho para o futuro da floresta

21 de Março 2025

A 5.ª Conferência The Navigator Company/Expresso reuniu especialistas e decisores para debater a floresta para além das perceções, num contexto de crescente desinformação. Com um apelo à gestão ativa e sustentável, o evento abordou a necessidade de estratégias claras, educação e envolvimento político.

O CEO da The Navigator Company, António Redondo, abriu a sessão destacando a importância de um debate informado sobre a floresta. “O caminho da floresta sustentável não se constrói com debates que assentam em perceções erradas e sem fundamentação. Constrói-se com escolhas informadas, visão clara, ações consequentes e sem medo de mudar e desafiar apriorismos”, afirmou, sublinhando ainda a necessidade de um enquadramento legal que motive a gestão ativa da floresta. Alertou também para os riscos do abandono florestal e para a urgência de combater preconceitos em relação à exploração económica das florestas plantadas, enfatizando o seu papel essencial na bioeconomia e na descarbonização.

O que realmente pensam os portugueses sobre a floresta?

Pedro Dionísio, professor catedrático do ISCTE e coordenador do estudo “Para Além das Perceções sobre a Floresta e o Eucalipto”, apresentou conclusões que desafiam algumas narrativas comuns. “72% dos portugueses consideram que a floresta bem gerida é sempre benéfica, independentemente da espécie”, revelou, acrescentando que “as opiniões sobre plantações de eucalipto são significativamente menos negativas do que as retratadas nos meios de comunicação”.

O estudo, conduzido em 2024 pelo FutureCast Lab do ISCTE, envolveu mais de 600 participantes, numa amostra representativa da sociedade portuguesa, e procurou compreender como a floresta e o eucalipto são percebidos em diferentes contextos, bem como os desfasamentos existentes entre as perceções mais comuns e a realidade.

Uma das conclusões mais consensuais aponta que mais de 85% dos portugueses acreditam que as florestas bem geridas apresentam menor risco de incêndio. “Esta foi a área onde encontrámos maior unanimidade”, destacou Pedro Dionísio.

“O País ainda não escolheu o que quer para a floresta nacional”

Na mesa-redonda “Florestas: para além das perceções”, Helena Pereira, Professora Catedrática Emérita do Instituto Superior de Agronomia (ISA), destacou a relevância da literacia florestal como base para uma maior compreensão da importância da floresta. “As crianças precisam de ter contacto com as plantas; mostramos-lhes tudo sobre animais, mas nada parecido relativamente às árvores”, referiu, defendendo uma aposta na formação desde a infância e no reforço do ensino florestal ao longo de toda a educação, incluindo a essencial formação de professores. Sublinhou também o papel da investigação e das indústrias florestais na transformação e valorização dos recursos provenientes da floresta.

Francisco Gomes da Silva, Professor do ISA, chamou atenção para a divergência entre opinião pública e opinião publicada. “Os fazedores de opinião professam ideias negativas sobre a floresta, que, muitas vezes, correspondem a mobilizações políticas e ideológicas, mas a perceção geral da população é mais equilibrada”, afirmou. Destacou o problema da falta de matéria-prima florestal, apesar do aumento da procura, e apontou que a solução é uma gestão mais intensiva e eficiente dos povoamentos. E deixou uma reflexão para o futuro: “A floresta é o que quisermos fazer dela. Mas o País ainda não escolheu o que quer para a floresta nacional”.

Teresa Soares David, Investigadora Doutorada em Engenharia Florestal, reforçou a importância da gestão florestal sustentável e da integração das dimensões ambiental e económica. “Não podemos continuar com esta dicotomia ambiente/economia”, salientou, defendendo que a floresta deve ser vista como um ecossistema multifuncional. Alertou também para a necessidade de boas práticas de gestão à escala da paisagem, que promovam a sustentabilidade a longo prazo.

Maria José Roxo, Professora Catedrática e investigadora da Universidade Nova de Lisboa, apontou a necessidade de uma estratégia territorial consistente e integrada, sublinhando que “o que nos falta é pensar o território”. Chamou a atenção para a importância de compreender o que já funcionou no passado e adaptar soluções às especificidades locais, em vez de aplicar modelos homogéneos. Defendeu uma abordagem sistémica, que integre todos os aspetos da floresta e tenha o território como base. “Falta vontade política, combate à inércia e maior conhecimento do território por parte de quem decide”, concluiu.

“Podemos ter impacto na sustentabilidade de outros setores”

Os participantes na mesa-redonda “Da floresta para o futuro” refletiram e partilharam experiências sobre a importância da floresta como origem de matérias-primas renováveis, fundamentais num novo paradigma de bioeconomia circular. Isso mesmo sublinhou Carlos Pascoal Neto, diretor-geral do RAIZ – Instituto de Investigação da Floresta e Papel, considerando que na floresta encontramos respostas para os dois grandes desafios da atualidade: “a escassez de recursos e as alterações climáticas”. O responsável deu exemplos de várias soluções com origem na floresta de eucalipto, como “os biocompósitos que misturam fibras celulósicas e bioplásticos”, os “materiais capazes de substituir o couro ou pele sintética”, “os prebióticos com aplicações na nutracêutica e na saúde”, ou os “fertilizantes e corretivos de solo obtidos a partir de subprodutos do processo industrial”.

Nuno Rodrigues, diretor de Energia e Transição Energética da The Navigator Company, defendeu que o país tem um enorme potencial no setor energético. “Temos muitos recursos renováveis e a floresta é um deles. O CO2 biogénico, libertado da matéria-prima nos nossos processos industriais, pode dar origem a biocombustíveis. Podemos ter impacto na sustentabilidade de outros setores, como por exemplo, a aviação. Esse é um caminho que temos de ter a ambição de percorrer”.  Para isso, acrescentou, “são precisos investigação e investimento”.

Elvira Fortunato, investigadora e professora da NOVA FCT, destacou a importância deste investimento em inovação e lembrou que o país tem uma excelente oportunidade para se reindustrializar, potenciando os apoios do PRR. Destacou ainda a importância das “agendas mobilizadoras, que ligam as empresas às universidades”, como motor de desenvolvimento.

Raquel Almeida, Diretora de Desenvolvimento de Produto e Transformação de Processos da ALTRI, destacou o investimento da empresa na produção de celulose para o setor têxtil. “O Lyocell é um tecido à base de fibras de eucalipto, com um impacto ambiental significativamente menor do que o algodão”, explicou. Atualmente, a ALTRI trabalha para fortalecer a cadeia de valor nacional, procurando fechar o ciclo de produção. “O nosso objetivo é que, além da celulose, Portugal possa também produzir o fio, reduzindo a dependência das importações de países como a Turquia, a China e a Índia, para onde atualmente exportamos a celulose”, revelou.

A construção é outro dos setores que pode tornar-se mais sustentável através do recurso a matérias-primas florestais. No entanto, persistem alguns mitos que dificultam essa transição, alertou Jorge Matias, diretor na Carmo Wood, em representação da Associação das Indústrias de Madeira e Mobiliário de Portugal.  Por exemplo, “há ainda a ideia de que a madeira não oferece a mesma estabilidade e resistência que outros materiais estruturais, quando já está demonstrado que o seu desempenho é equivalente”, afirmou. Para o especialista, a utilização de materiais de origem renovável neste setor é essencial, “sobretudo tendo em conta que a indústria da construção é responsável por 40% das emissões globais de CO₂”.

“Num mundo onde há escassez de recursos naturais, precisamos de matéria-prima florestal”

O ministro da Agricultura e Pescas, José Manuel Fernandes, encerrou o evento reforçando o compromisso governamental com a valorização da floresta. “Num mundo onde há escassez de recursos naturais, precisamos de matéria-prima florestal”, afirmou, defendendo a importância de reduzir a dependência externa e potenciar os recursos internos.

Sublinhou a urgência de investir na formação e na captação de novos profissionais para o setor, alertando para um dado preocupante: apenas 11 alunos se candidataram recentemente a cursos de engenharia florestal. Destacou ainda o papel essencial da floresta na coesão territorial, na criação de riqueza e no reforço da competitividade do país.

A conferência deixou uma mensagem clara: a floresta portuguesa precisa de mais do que perceções. Requer conhecimento, gestão ativa e um compromisso coletivo para garantir um futuro sustentável.