O fogo não escolhe espécies, escolhe paisagens

22 de Janeiro 2026

As decisões relativas aos fogos rurais e à sua prevenção devem basear-se mais em factos e menos em opiniões. É o que defende Fábio Silva, Investigador de incêndios, lembrando dois factos: a gestão limita o comportamento extremo do fogo; e o padrão dos incêndios está associado sobretudo a territórios sem gestão ativa. A variável crítica não é a espécie presente, mas a forma como o espaço é ou não é cuidado.

Todos os verões vemos as mesmas imagens de chamas que engolem a paisagem e ouvimos frases como “fora da capacidade de extinção” ou “falta de gestão do território”. Mas o que significam realmente? Porque é que alguns incêndios se apagam em horas e outros se tornam imparáveis, mesmo com muitos meios no terreno?

A resposta está no comportamento do fogo, resultado da interação entre vegetação, meteorologia e relevo. Segundo Byram (1959), a intensidade do fogo resulta da quantidade de combustível que arde, da energia que liberta e da velocidade a que se propaga. Quanto mais combustível, mais seco e contínuo, maior a energia libertada. Finney e McAllister (2021) referem que, acima dos 10 000 kW/m, o fogo cria correntes ascendentes que alteram o ambiente e se torna praticamente incontrolável.

Estas dinâmicas explicam porque é que calor, vento, seca e acumulação de vegetação originam incêndios extremos. O EASAC, 2019, (European Academies’ Science Advisory Council, que integra as academias de ciências dos países europeus e presta aconselhamento científico à União Europeia) confirma que estes eventos se agravam com o abandono rural. Não podemos controlar o clima, mas podemos gerir a vegetação, reduzindo o combustível e a energia do fogo. Clements et al. (2007) demonstram que essa gestão é uma das formas mais eficazes de limitar incêndios e proteger pessoas e ecossistemas.

Compreender estas dinâmicas é essencial: é a forma como gerimos o território, ou deixamos de o fazer, que explica boa parte do que, onde e como arde.

Plantações florestais VS florestas

É importante distinguir plantações florestais de florestas naturais. As primeiras são sistemas planeados para produção, geralmente monoculturas de curta rotação, que exigem gestão contínua. As segundas têm maior diversidade ecológica, mas muitas vezes falta de gestão, o que acumula vegetação e aumenta o risco de incêndio. Lindenmayer et al. (2023) lembram que o problema não está na monocultura, mas na ausência de ordenamento e manutenção que transforma qualquer paisagem em combustível.

Esta distinção é crucial para entender o fogo com realismo. As plantações, como os eucaliptais, têm gestão regular e risco mais controlado, ocupando cerca de 845 mil hectares, um quarto da floresta portuguesa. Já nas florestas ao abandono, compostas por matos e povoamentos envelhecidos, a falta de gestão acumula combustível e facilita a propagação. É nesse território esquecido e fragmentado que se decide a prevenção.

Os dados da AGIF (Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais, 2025) ajudam a clarificar o debate. Embora florestas e plantações cubram grande parte do território, os eucaliptais representaram apenas 6% da área ardida em 2025, face a 69% de matos e herbáceas e 9% de resinosas. Os grandes incêndios ocorrem sobretudo em áreas ao abandono, com combustível acumulado e pouca gestão. Muitos começam em zonas de transição entre campos agrícolas, matos e povoamentos sem intervenção, territórios fragmentados onde a prevenção é quase impossível. O Relatório do SGIFR (Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais, 2024) reforça: o território só é cuidado quando gera valor. Plantações produtivas mantêm alguma gestão, enquanto as áreas sem retorno económico ficam entregues ao abandono. Valorizar o território, seja pela produção ou pelos serviços de ecossistema, é essencial para mantê-lo ativo, resiliente e menos propenso a arder.

O problema não é a espécie, é a gestão

Não sei se temos eucaliptos a mais, nem me reconheço autoridade para o afirmar. Sei, sim, que a biodiversidade é vital ao equilíbrio dos ecossistemas, sobretudo num cenário de alterações climáticas e incêndios mais intensos. Mais do que opiniões, precisamos de basear as nossas decisões em factos.

O primeiro é que a gestão limita o comportamento extremo do fogo. Byram (1959) e Finney & McAllister (2021) demonstraram que a intensidade depende da quantidade e disposição do combustível, mais do que da sua natureza química. Com gestão, o fogo mantém-se sob controlo; sem ela, a vegetação acumula energia suficiente para se autoalimentar.

O segundo facto é estatístico. Os dados da AGIF (2025) reforçam a ideia de que o padrão dos incêndios está associado sobretudo a territórios sem gestão ativa. A variável crítica não é a espécie presente, mas a forma como o espaço é ou não é cuidado.

Falar de incêndios é falar de território. A prevenção estrutural exige ordenamento, investimento e gestão ativa. As zonas de minifúndio, fragmentadas e sem escala económica, concentram os incêndios mais recorrentes. No Sul, onde há propriedades maiores e gestão agregada, a severidade é menor. Onde há gestão, há resiliência.

O fogo será sempre parte da nossa paisagem, mas a catástrofe não precisa de ser. O que arde, ano após ano, é a ausência de gestão, de valorização e de visão sobre um território que deixou de ser cuidado pelas suas comunidades. Se quisermos um país menos vulnerável, temos de transformar a paisagem num espaço de valor económico, ecológico e comunitário. O fogo ensina-nos que não podemos continuar a reagir: é tempo de planear e agir com uma visão ajustada às mudanças climáticas e à nossa posição geográfica, conciliando a urgência ecológica com a sustentabilidade económica.

Por Fábio Silva, Investigador de incêndios

Nota: Este artigo foi publicado originalmente na edição nº 16 da revista My Planet, em novembro de 2025