O impacto (in)visível: os incêndios e o desafio para a neutralidade carbónica

9 de Fevereiro 2026

Júlia Seixas, Professora catedrática da Universidade Nova de Lisboa, reflete sobre o impacto evidente das ondas de calor na frequência e magnitude dos incêndios rurais, e sobre o consequente aumento das emissões diretas e indiretas de CO2 geradas pelo fogo. Estarão em causa, neste contexto, os objetivos da neutralidade carbónica em Portugal?

Um artigo recentemente publicado na Nature(1) dá conta de duas conclusões a reter. A partir de uma análise de 213 ondas de calor no período de 2000–2023, os autores demonstram que, devido ao aquecimento global antropogénico, a mediana das ondas de calor (i.e. da sua intensidade, temperatura média (°C) durante o período e na região do evento) na década 2000-2009 tornou-se 20 vezes mais provável do que no período 1850-1900, e na década 2010-2019 tornou-se 200 vezes mais provável. Considerando o período completo de análise, os autores concluem que 25% daqueles eventos seriam impossíveis na ausência de alterações climáticas antropogénicas. A segunda conclusão decorre da análise feita sobre o contributo de 180 grandes emissores de gases com efeito de estufa para a série das ondas de calor estudadas. Concluíram que 14 dos grandes emissores (antiga União Soviética, a produção de carvão da China e da Índia, a produção de cimento da China, e empresas como a Saudi Aramco, Gazprom, ExxonMobil, Chevron, National Iranian Oil Company, BP, Shell, entre outros) foram responsáveis pelo aumento da intensidade das ondas de calor em 28% e os restantes em 22%. Globalmente, os 180 emissores contribuíram para 50% do aumento da intensidade da série de ondas de calor. Estas conclusões ilustram bem a ‘armadilha’ em que a humanidade se encontra, e da qual precisa sair o mais rápido possível.

Convém atentar ao que se passou este ano 2025(2): em Portugal, a área ardida foi 2,3 vezes superior à média anual desde 1980, e em Espanha os incêndios foram os piores em 30 anos, quase quadruplicando a área média anual ardida durante este período. Até agora, Portugal é proporcionalmente o país mais afetado pelos incêndios na Europa. Em termos absolutos, é também o país com mais hectares ardidos no período 2006-2024, com mais de 1,8 milhões de ha, seguido de Espanha com mais de 1,5 milhões de ha, e de Itália e Grécia com cerca de 1 milhão de ha cada. Esta performance justifica-se, em grande parte, pelo facto de o mês de agosto 2025 ter sido o quinto mês de agosto mais quente na temperatura do ar em 94 anos, e a onda de calor registada das mais intensas, segundo o IPMA.

O impacto das ondas de calor na frequência e magnitude dos incêndios rurais é já evidente, e é expectavelmente crescente. Como devemos encarar esta situação face ao objetivo da neutralidade carbónica que Portugal quer alcançar em 2050 ou mesmo 2045, como já mencionado politicamente?

As emissões diretas e indiretas de CO2 geradas pelos incêndios rurais impacta o inventário nacional de emissões de gases com efeito de estufa (GEE), no setor designado LULUCF (Land Use, Land Use Change and Forestry), que inclui ainda as alterações de uso do solo entre áreas florestais, áreas agrícolas, pastagens, áreas húmidas, e áreas artificiais, bem como produtos e derivados da madeira. Este quadro ilustra bem como a dinâmica do território nacional impacta o balanço nacional de emissões de GEE. As emissões diretas de CO2 são as libertadas durante o incêndio, e as indiretas as que são atribuídas aos incêndios, após a mortalidade das árvores, e incluem por exemplo as que derivam da utilização dos salvados, e as que ocorrem durante a decomposição da biomassa que fica no solo.

Na já longa série de 34 anos de inventários nacionais (1990-2023)(3), o LULUCF funcionou como sequestro líquido em 28 anos, e como emissor líquido nos restantes 6 anos, estando esta capacidade diretamente relacionado com a ocorrência de incêndios rurais. Em 18 daqueles 28 anos, a capacidade de sequestro líquido do setor LULUCF foi igual ou inferior a 5% das emissões nacionais, ou seja, muito reduzida. Os anos 1992 e 1993 registaram a maior capacidade de sequestro líquido, perto de 6 MtCO2 equivalente a 9% das emissões do País, enquanto a maior emissão líquida de CO2, 15 MtCO2 equivalente a 21% das emissões nacionais, se observou em 2017. Também os anos de 2003 e 1990 devem ser apontados como anos em que o setor LULUCF funcionou como emissor líquido, equivalente a 10% e 8% respetivamente das emissões nacionais. Para comparação, em Espanha observa-se uma capacidade de sequestro líquido regular ao longo da série de 34 anos, variando entre 11% e 19% das emissões do País.

Para 2030, o PNEC 2030 (Plano Nacional de Energia e Clima) prevê que o País possa dispor de uma capacidade de sequestro líquido de 6,5 MtCO2. Este nível de sequestro nunca foi verificado em 34 anos de inventário nacional de emissões, aproximando-se apenas um ano — 2008 — em que se registou a maior capacidade de sequestro líquido, 6,1 MtCO2.

Não é preciso ser-se perito/a no tema dos incêndios rurais, para se concluir que é muito arriscado contar com o papel do LULUCF para o objetivo da neutralidade carbónica do País, a menos que as medidas de prevenção dos incêndios rurais comecem a dar resultado visível e, ao mesmo tempo, se revolucione as medidas de combate. A ocorrência simultânea de incêndios rurais de elevado impacto em vários locais, não só em Portugal mas também na Europa, cativando os recursos do Mecanismo Europeu, evidencia uma elevada pressão sobre os recursos de combate a incêndios no clima atual, i.e., com um aquecimento de 1,3 °C face à era pré-industrial, e desafia os limites da resiliência dos territórios. Não é, de todo, seguro que o País venha a ter o contributo do LULUCF para o objetivo da neutralidade carbónica.

Por Júlia Seixas, Professora catedrática, Universidade Nova de Lisboa

(1) Quilcaille, Y., Gudmundsson, L., Schumacher, D.L. et al. Systematic attribution of heatwaves to the emissions of carbon majors. Nature 645, 392–398 (2025). https://doi.org/10.1038/s41586-025-09450-9
(2) Extreme fire weather conditions in Spain and Portugal now common due to climate change. World Weather Attribution. 4 September 2025.
(3) Portuguese National Inventory Document on Greenhouse Gas Emissions, 1990–2023. Submission under the UNFCCC. Agência Portuguesa do Ambiente. March 2025. Amadora.

Nota: Este artigo foi publicado originalmente na edição nº 16 da revista My Planet, em novembro de 2025.