António Amorim revela as estratégias através das quais o setor da cortiça tem conseguido reduzir significativamente o risco de propagação de fogos, demonstrando que é possível aliar a produção económica à conservação da natureza.

Num país onde os incêndios florestais são uma ameaça recorrente, prevenir é mais do que um dever, é uma urgência. No setor da cortiça, esta consciência está profundamente enraizada, já que o montado é não só um ecossistema único, mas também a base de uma das indústrias mais sustentáveis do mundo, de que Portugal é líder mundial. Preservá-lo é proteger uma riqueza ecológica, social e económica.
A prevenção de incêndios começa com a gestão responsável da floresta. O setor da cortiça adota um conjunto de boas práticas florestais que reduzem significativamente o risco de propagação de fogos. Entre estas práticas destacam-se:
• Limpeza do sub-bosque, através da remoção de matos e vegetação seca que alimentam incêndios;
• Desbaste controlado, evitando o adensamento excessivo do montado, que dificulta o acesso e favorece a propagação do fogo;
• Abertura e manutenção de aceiros, criando barreiras naturais ao avanço dos incêndios;
• Utilização de pastoreio controlado, que ajuda a manter o mato sob controlo, reduzindo o combustível disponível;
• Monitorização contínua e formação dos proprietários e trabalhadores florestais, promovendo uma cultura de prevenção ativa.
Estas ações, articuladas com planos de gestão florestal sustentáveis e certificados, têm como objetivo mitigar o risco de incêndio e promover a produtividade das florestas, a biodiversidade, conservar os solos e melhorar a resiliência do ecossistema.
O sobreiro, sendo uma árvore autóctone da Península Ibérica, está perfeitamente adaptada ao clima mediterrânico. A sua importância vai muito além da produção de cortiça. Trata-se de uma espécie-chave no equilíbrio do ecossistema, contribuindo para a regulação do ciclo da água, fixação de carbono, conservação da biodiversidade e prevenção da desertificação.
Além disso, é uma árvore protegida pela lei portuguesa precisamente pelo seu valor ecológico, económico e cultural. O montado, onde o sobreiro predomina, é um dos ecossistemas com maior biodiversidade da Europa, acolhendo espécies como o lince-ibérico, a águia-imperial e inúmeras plantas endémicas.
Uma das características mais notáveis do sobreiro é a sua resistência natural ao fogo. A cortiça que o envolve funciona como isolante térmico natural, protegendo o tronco da ação direta das chamas. Após um incêndio, enquanto muitas espécies sucumbem, o sobreiro tem uma extraordinária capacidade de regeneração.
Este facto faz com que os montados de sobro tenham uma enorme resistência e resiliência à propagação de incêndios. Essa resistência não deve ser motivo para negligência. A prevenção continua a ser essencial para evitar perdas irreparáveis, especialmente em situações de grande intensidade e/ou recorrência de incêndios.
A promoção de povoamentos mistos e adensamentos, incluindo o sobreiro como espécie capaz de prevenir e combater o impacto dos incêndios, afigura-se como um elemento determinante e necessário a incluir nas políticas florestais públicas.
O setor da cortiça tem vindo a demonstrar que é possível aliar a produção económica à conservação da natureza. A floresta bem gerida é, por definição, uma floresta mais segura. A aposta em boas práticas florestais, no conhecimento técnico e no envolvimento das comunidades locais tem sido fundamental para manter o montado vivo e produtivo.
Proteger o sobreiro é proteger um modo de vida, uma economia circular e um ecossistema de elevado valor. E porque “prevenir arde menos”, o compromisso com a gestão florestal responsável é, cada vez mais, o caminho certo para um futuro sustentável.
Por António Amorim, Presidente da Corticeira Amorim
Nota: Este artigo foi publicado originalmente na edição nº 16 da revista My Planet, em novembro de 2025.