Quando o frio dá flor

8 de Janeiro 2026

A beleza das árvores que florescem no inverno, mesmo sendo esperada, não deixa de nos surpreender. Conheça algumas das espécies que, contra corrente, se enchem de flores nos meses mais frios, mostrando que a natureza é fértil em estratégias de adaptação.

Quando a maior parte da vida está em modo recolhimento, entre dezembro e março, há árvores que decidem encher-se de flores. Ano após ano, trazem cor à paisagem invernal portuguesa. Mas, mais do que isso, são uma promessa da renovação e uma garantia de que a natureza está bem viva, apesar da dormência reinante.

Estas flores, contrastantes com o ambiente que as rodeia, como se surgissem fora de época, são igualmente um tesouro para os polinizadores – representam uma preciosa fonte de alimento, numa altura do ano em que o néctar e o pólen escasseiam.

A floração no inverno resulta de diferentes estratégias evolutivas. Para algumas espécies, florir nesta altura do ano significa que têm maiores hipóteses de sucesso reprodutivo – havendo menos flores, há também mais hipótese de serem beneficiadas com a atividade dos polinizadores. Para as que dependem sobretudo do vento, como forma de concretizar a polinização, a estação mais fria acaba por reunir também condições mais favoráveis à reprodução.

As flores do eucalipto e o seu precioso néctar

A floração do eucalipto começa no outono e mantém-se durante todo o inverno, normalmente até março. O Eucalyptus globulus, a espécie mais plantada em Portugal, é também aquela que tem as flores maiores – uma espécie de pompons vistosos que se destacam entre a folhagem, com os seus numerosos filamentos brancos. Apesar de não terem aroma, são ricas em néctar, atraindo muitos insetos, incluindo abelhas. É por isso comum haver colmeias junto dos eucaliptais – facto que não será surpreendente para os apreciadores do mel de eucalipto.

As flores da amendoeira, lindas como a neve

As amendoeiras (Prunus dulcis) enchem os campos de branco logo a partir de janeiro. Reza a lenda que foram trazidas para Portugal por um rei mouro para agradar à sua amada nórdica, que sofria com saudades da neve. Histórias à parte, a verdade é que as amendoeiras se deram bem por cá.

Apesar de os seus botões se formarem no verão, mantêm-se em dormência durante todo o outono e só florescem no inverno, depois de “acumularem” determinadas horas de frio. Em janeiro, as amendoeiras começam a encher-se de pequenas flores, de tom branco ou rosa-pálido.

A festa do medronheiro 

O medronheiro (Arbutus unedo) floresce entre setembro e fevereiro e tem a particularidade de poderem ocorrer, na mesma planta e em simultâneo, flores e frutos. Enquanto tantas árvores se despem das suas folhas, preparando-se para entrar no inverno, o medronheiro faz a festa, decorando-se com os tons brancos e rosados das suas pequenas flores e as cores vermelho vivo e laranja das suas bagas.

Tal como no caso do eucalipto, as abelhas agradecem e produzem, com o seu néctar, um mel especial e muito apreciado.

As flores da aveleira e o vento

A aveleira (Corylus avellana) floresce entre dezembro e março, e é às suas minúsculas flores que devemos agradecer os populares frutos. Esta é uma das espécies que contam com a ajuda do vento para a polinização – a chamada polinização anemófila. O seu pólen é facilmente “soprado” para longe, em dias mais ventosos.