Em Portugal existem duas espécies de cágados autóctones, mas nem todos os que encontramos nas nossas águas são de cá. Um novo guia de campo ajuda a perceber quem é quem e mostra-nos como observar estes animais sem os perturbar.
Está imóvel em cima de um tronco, junto à margem, a aproveitar o sol. À primeira vista, até pode parecer uma pedra, mas, se olharmos atentamente, vemos que “a pedra” tem carapaça. É um cágado. Resta saber qual.
Em Portugal vivem duas espécies autóctones: o cágado-de-carapaça-estriada (Emys orbicularis) e o cágado-mediterrânico (Mauremys leprosa). A estas juntam-se várias espécies exóticas, cuja identificação nem sempre é fácil.
A Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural publicou este ano o primeiro Guia de Campo dos Cágados de Portugal, uma compilação de informação e imagens que ajuda a reconhecer as diferentes espécies e a saber o que procurar quando encontramos uma delas na natureza.
Pintas ou riscas?
O primeiro olhar pode ir para a cabeça. No cágado-de-carapaça-estriada, de menor dimensão, predominam pequenas pintas amareladas sobre um fundo escuro. A carapaça, ovalada e lisa, apresenta também as riscas claras que estão na origem do seu nome comum.
No cágado-mediterrânico, as marcas da cabeça e do pescoço formam listas amareladas ou alaranjadas. É geralmente maior e a carapaça pode apresentar-se mais achatada e, nos indivíduos mais velhos, mais rugosa.
Conhecer as duas espécies é também perceber que não enfrentam exatamente as mesmas condições. O cágado-de-carapaça-estriada prefere massas de água limpa, parada ou de corrente lenta, com vegetação abundante. É particularmente sensível à degradação do habitat e está classificado como “Em Perigo”.
O cágado-mediterrânico, por seu lado, adapta-se a uma maior diversidade de ambientes, desde rios e ribeiros a charcos, barragens ou canais de irrigação, e o seu estatuto de conservação é considerado “Pouco Preocupante”, embora apresente uma tendência populacional decrescente.
Nem todos são de cá
A identificação torna-se mais difícil porque nas nossas águas vivem também cágados de espécies exóticas – o Guia identifica nove, sobretudo introduzidas através do comércio de animais de companhia e posterior abandono. O caso mais conhecido é o da tartaruga-da-Flórida (Trachemys scripta), uma espécie exótica invasora que é pequena e fácil de manter quando jovem, mas que cresce e pode viver muitos anos, exigindo progressivamente mais espaço e cuidados. Muitos exemplares acabam por ser libertados na natureza.
O problema é que libertar uma tartaruga de estimação não significa devolvê-la ao seu habitat. Quando uma espécie invasora se estabelece num ecossistema que não é o seu, pode competir com as espécies autóctones por alimento, locais de nidificação e zonas de exposição ao sol, essenciais para regularem a temperatura corporal. Pode ainda transmitir-lhes doenças e parasitas.
Ver sem incomodar
Para observar e identificar, não é preciso chegar muito perto. Aliás, é mesmo melhor não o fazer. Os cágados são animais vigilantes e a aproximação pode levá-los a fugir e perturbar atividades tão importantes como a alimentação ou a termorregulação.
O Guia de Campo dos Cágados de Portugal recomenda observá-los à distância, de preferência com binóculos, e registar informações como o local, a data, o número de indivíduos e o comportamento observado. Se tiver material que permita fotografar sem se aproximar muito e sem perturbar os animais, as imagens da carapaça, da cabeça e do perfil lateral podem ajudar a confirmar posteriormente a espécie. Os registos podem ser partilhados em plataformas de ciência cidadã, como o iNaturalist.
E há uma regra simples que é válida para os cágados ou qualquer outro encontro na natureza: ver não implica tocar. Não se deve perseguir, capturar, alimentar ou mudar um cágado de lugar, exceto perante uma situação de perigo iminente. Se estiver ferido, a recomendação é contactar as autoridades competentes.
Reconhecer um cágado exige atenção aos detalhes. Mas respeitar o seu espaço exige saber manter a distância. Entre uma coisa e outra, há muito para descobrir sem perturbar.
O Guia de Campo dos Cágados de Portugal está disponível gratuitamente aqui.