Quem se esconde debaixo da carapaça?

12 de Outubro 2026

Em Portugal existem duas espécies de cágados autóctones, mas nem todos os que encontramos nas nossas águas são de cá. Um novo guia de campo ajuda a perceber quem é quem e mostra-nos como observar estes animais sem os perturbar.

 

Está imóvel em cima de um tronco, junto à margem, a aproveitar o sol. À primeira vista, até pode parecer uma pedra, mas, se olharmos atentamente, vemos que “a pedra” tem carapaça. É um cágado. Resta saber qual.

Em Portugal vivem duas espécies autóctones: o cágado-de-carapaça-estriada (Emys orbicularis) e o cágado-mediterrânico (Mauremys leprosa). A estas juntam-se várias espécies exóticas, cuja identificação nem sempre é fácil.

A Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural publicou este ano o primeiro Guia de Campo dos Cágados de Portugal, uma compilação de informação e imagens que ajuda a reconhecer as diferentes espécies e a saber o que procurar quando encontramos uma delas na natureza.

Pintas ou riscas?

O primeiro olhar pode ir para a cabeça. No cágado-de-carapaça-estriada, de menor dimensão, predominam pequenas pintas amareladas sobre um fundo escuro. A carapaça, ovalada e lisa, apresenta também as riscas claras que estão na origem do seu nome comum.

No cágado-mediterrânico, as marcas da cabeça e do pescoço formam listas amareladas ou alaranjadas. É geralmente maior e a carapaça pode apresentar-se mais achatada e, nos indivíduos mais velhos, mais rugosa.

Conhecer as duas espécies é também perceber que não enfrentam exatamente as mesmas condições. O cágado-de-carapaça-estriada prefere massas de água limpa, parada ou de corrente lenta, com vegetação abundante. É particularmente sensível à degradação do habitat e está classificado como “Em Perigo”.

O cágado-mediterrânico, por seu lado, adapta-se a uma maior diversidade de ambientes, desde rios e ribeiros a charcos, barragens ou canais de irrigação, e o seu estatuto de conservação é considerado “Pouco Preocupante”, embora apresente uma tendência populacional decrescente.

Nem todos são de cá

A identificação torna-se mais difícil porque nas nossas águas vivem também cágados de espécies exóticas – o Guia identifica nove, sobretudo introduzidas através do comércio de animais de companhia e posterior abandono. O caso mais conhecido é o da tartaruga-da-Flórida (Trachemys scripta), uma espécie exótica invasora que é pequena e fácil de manter quando jovem, mas que cresce e pode viver muitos anos, exigindo progressivamente mais espaço e cuidados. Muitos exemplares acabam por ser libertados na natureza.

O problema é que libertar uma tartaruga de estimação não significa devolvê-la ao seu habitat. Quando uma espécie invasora se estabelece num ecossistema que não é o seu, pode competir com as espécies autóctones por alimento, locais de nidificação e zonas de exposição ao sol, essenciais para regularem a temperatura corporal. Pode ainda transmitir-lhes doenças e parasitas.

Ver sem incomodar

Para observar e identificar, não é preciso chegar muito perto. Aliás, é mesmo melhor não o fazer. Os cágados são animais vigilantes e a aproximação pode levá-los a fugir e perturbar atividades tão importantes como a alimentação ou a termorregulação.

O Guia de Campo dos Cágados de Portugal recomenda observá-los à distância, de preferência com binóculos, e registar informações como o local, a data, o número de indivíduos e o comportamento observado. Se tiver material que permita fotografar sem se aproximar muito e sem perturbar os animais, as imagens da carapaça, da cabeça e do perfil lateral podem ajudar a confirmar posteriormente a espécie. Os registos podem ser partilhados em plataformas de ciência cidadã, como o iNaturalist.

E há uma regra simples que é válida para os cágados ou qualquer outro encontro na natureza: ver não implica tocar. Não se deve perseguir, capturar, alimentar ou mudar um cágado de lugar, exceto perante uma situação de perigo iminente. Se estiver ferido, a recomendação é contactar as autoridades competentes.

Reconhecer um cágado exige atenção aos detalhes. Mas respeitar o seu espaço exige saber manter a distância. Entre uma coisa e outra, há muito para descobrir sem perturbar.

O Guia de Campo dos Cágados de Portugal está disponível gratuitamente aqui.