Televisões em chamas e jornalismo em cinzas

9 de Março 2026

Na opinião de Carlos Magno, cobrir incêndios – com a ajuda dos velhos mapas da cartografia do exército –, devia ser uma disciplina obrigatória para quem é repórter todo-o-terreno.

As imagens não têm cheiro e as altas temperaturas não derretem a frieza dos ecrãs, quando os repórteres debitam números sobre bombeiros e hectares queimados.

No mapa dos incêndios há terras que nunca foram notícia e serras de vaga memória que o fumo transforma em paisagem perdida no Portugal rural.

Passam aviões no céu e sirenes interrompem os gritos de populações desesperadas, com baldes de plástico em bolandas e mangueiras angustiadas a esguichar abandono.

As imagens repetem-se, quase todas iguais entre si, parecendo retiradas do arquivo — podiam ser do ano passado, ou já do próximo.

A época dos incêndios entra pelo verão e prolonga-se pelo outonal regresso das férias, com aulas à espera de professores e as primeiras chuvas que precedem as cheias.

No calendário de qualquer ano é esta a agenda mediática obrigatória. Os jornalistas já sabem que enquanto muitos portugueses vão turistar para o país real, eles têm reportagem estival garantida e podem repetir lugares-comuns adjetivados por palavras de condenação contra quem não soube prevenir.

Também se rogam pragas aos eucaliptos e fazem-se leituras comparadas com manchas de territórios queimados em governos anteriores.

Sim, porque em Portugal os incêndios são sempre políticos e as chamas alastram aos partidos que se atacam reciprocamente, procurando atribuir culpas a quem deixou arder mais ou se queimou menos.

Desde que o Ministro da Administração Interna António Costa foi acusado de ter dado ordens ao telejornal sobre a maneira de cobrir incêndios, que o tema virou neurose na nossa vida política.

Esse ministro já era o Primeiro e estava ainda fresco aos comandos da sua geringonça, quando mais de uma centena de portugueses morreu na estrada para o inferno de 2017.

A tragédia e o horror originaram monumentos e as cinzas foram caindo sobre os tribunais, onde se procurou a culpa de incertos e se viram rostos de autarcas marcados pela pergunta: Porquê eu?

Desculpem o cinismo deste texto, que reflete um pensamento próprio sobre o jornalismo e uma enorme ignorância sobre a floresta, os fogos e a maneira de os combater.

No ano passado, a minha aldeia em Vinhais abriu telejornais porque estava em perigo e as chamas obrigaram à evacuação das populações. Vi o meu Pai (já com cem anos) na televisão ao lado da minha Mãe (com noventa e muitos), muito bem tratados pela Proteção Civil, e sossegou-me um telefonema do Presidente da Câmara Luís Fernandes, que me garantiu: “Não precisa de vir cá. Até porque não consegue entrar. Mas nós estamos a fazer tudo o que é possível e a segurança das pessoas é sagrada”.

Este ano as chamas voltaram ao local. Saí de Chaves em direção a Vinhais e vi uma enorme fumarada no fundo da estrada. Achei que o incêndio estava na curva seguinte. Enganei-me. Ilusão ótica. Fui andando e só quase quarenta quilómetros depois é que percebi que eram de novo as serras da minha aldeia em chamas. Nunca conseguirei ser suficientemente grato aos bombeiros que me defenderam o olival e impediram que ardesse a oliveira que plantei com o meu avô quando tinha seis anos.

Havia mirones nos sítios mais altos e carros parados na estrada, para ver os aviões a cruzar os céus, com helicópteros a sobrevoar as margens do rio.

Percebi, finalmente, que os incêndios não podem ser vistos ao vivo nem na televisão. Só há uma maneira de descrever o percurso do fogo e a fúria das chamas: pela geografia física. Essa geografia que não vem no mapa das estradas, nem no googlemaps. É preciso recorrer às velhas cartas militares, onde o território está devidamente assinalado. Porque é da defesa do País que se trata. E da guerra no sentido quase primitivo do termo.

Desculpem esta prosa bárbara, mas eu, que dei aulas de jornalismo vários anos, tenho de reconhecer: O jornalismo não se ensina. Só se aprende.

Cobrir incêndios devia ser uma disciplina obrigatória para quem é lançado às chamas como repórter todo-o-terreno.

É preciso ensinar geografia aos jornalistas e mostrar-lhes os velhos mapas da cartografia do exército. Só depois disso estaremos em condições de saber onde é o fogo. E quem é o inimigo das notícias.

Por Carlos Magno, Jornalista

Nota: Este artigo foi publicado originalmente na edição nº 16 da revista My Planet, em novembro de 2025