Um laboratório vivo

22 de Outubro 2026

Quem passa junto aos portões da Quinta de São Francisco não imagina que lá dentro vivem mais de 450 espécies botânicas e cerca de 110 espécies de animais vertebrados. Para além de ser um tesouro de biodiversidade, a sede do RAIZ possui um arboreto monumental de eucaliptos de relevância internacional – uma base de dados natural, na qual se têm apoiado algumas das linhas de investigação florestal desenvolvidas no Instituto.

 

A Quinta de São Francisco, em Eixo (Aveiro), é um verdadeiro laboratório a céu aberto, onde a curiosidade científica, a contemplação estética e a utilidade económica têm caminhado lado a lado, desde o final do século XIX. O eucalipto era, na altura, um género recente no panorama florestal português, e foi o elemento central da experiência promovida pelo escritor e paisagista Jaime de Magalhães Lima (1859-1936). O espaço da Quinta é a materialização do seu pensamento, que uniu cultura, ética, ciência e economia rural.

Hoje, são ainda os eucaliptos, agora verdadeiros colossos verdes, que marcam a paisagem. As maiores e algumas das mais antigas árvores do concelho de Aveiro podem ser encontradas neste local, com exemplares a alcançarem cerca de 55 metros de altura.

O eucalipto como objeto de estudo

A introdução sistemática de eucaliptos na Quinta terá tido início por volta de 1880, mas é a partir de 1902 que começam sementeiras regulares. Em 1906, teve lugar a plantação de cerca de 89 espécies do género Eucalyptus, muitas delas através do Jardim Botânico de Coimbra, sob a orientação do seu diretor Júlio Henriques, cunhado de Jaime de Magalhães Lima.

A Quinta transforma-se rapidamente num arboreto de referência não só a nível nacional, mas também internacional. Algumas das espécies plantadas são únicas ou extremamente raras a nível europeu. É o caso dos Eucalyptus risdonii, E. tenuirramis, E. muelleriana, Eucalyptus viminalis subsp. cygnetensis ou E. obtusiflora.

Jaime de Magalhães Lima foi um observador atento das virtudes e limitações do género Eucalyptus, algo amplamente documentado na sua obra “Eucaliptos e Acácias – Vinte anos de experiências” (1920), onde descreve a aptidão e usos de cada espécie experimentada. Reconhece, desde logo, a importância económica desta árvore, num contexto europeu marcado pela escassez de madeira após a I Guerra Mundial.

Testando as diferentes espécies, Magalhães Lima compara comportamentos em campo e regista resultados. Valoriza especialmente a capacidade de regeneração por rebentamento de toiça, característica comum a cerca de 90% das espécies de eucalipto e que é fundamental para a gestão florestal em talhadia.

Do legado privado a centro de referência na investigação florestal

Após a morte de Jaime de Magalhães Lima (1936), o legado botânico foi mantido e preservado pela sua família. Mais tarde, em 1982, a propriedade passou para a esfera empresarial ligada ao setor da pasta e papel, ao ser adquirida pela então Portucel, hoje The Navigator Company. Esta aquisição fazia sentido não só pela proximidade à unidade industrial de Aveiro (Cacia), mas pela possibilidade de a empresa passar a dispor daquele que era já um excelente campo de ensaios botânicos. Com um microclima particularmente favorável para o género Eucalyptus, a Quinta representou uma mais-valia pelo seu potencial para a investigação florestal, pelo notável arboreto de eucaliptos, e ainda, claro, pela sua história e valor cultural, ancoradas num proprietário fundador reconhecido como uma ilustre figura aveirense.

Em 1983, nasceu o Centro de Investigação da Portucel, e foi sobre este que, mais tarde, em 1996, é criado o RAIZ – Instituto de Investigação da Floresta e Papel, centro de I&D e transferência de conhecimento, promotor de uma bioeconomia baseada na floresta de eucalipto.

Nesta floresta única centenária, o conhecimento científico e a investigação aplicada à floresta encontram as condições ideais. O arboreto monumental da Quinta, pela diversidade de espécies, habitats e árvores singulares, permite observar in loco processos ecológicos, biodiversidade, produção florestal e serviços dos ecossistemas de uma forma integrada e acessível.

Um tesouro de biodiversidade

A Quinta de São Francisco beneficia de condições ecológicas excecionais, por estar num vale abrigado e com um curso de água permanente, pelo mosaico de habitats que a compõem e pela sua posição de transição bioclimática, entre influências temperadas e mediterrânicas. Em apenas cerca de 14 hectares, encontramos mais de 450 espécies botânicas de origens muito diversas, algumas nativas, outras exóticas.

A diversidade de eucaliptos, combinada com espécies nativas, criou uma paisagem diversificada, que proporciona abrigo e alimentação a uma fauna também ela muito diversa. Ao todo, existem mais de 110 espécies de vertebrados na Quinta, desde a cobra-rateira à raposa, passando pelo esquilo e pelo tritão-marmoreado. São, contudo, as 70 espécies de aves que aqui vivem, procuram alimento ou nidificam as que mais “brilham” — quer pela exuberância das suas cores, quer pelos vários cantos que se fazem ouvir em cada curva dos caminhos. Melros, carriças, águias-de-asa-redonda, gaios, gralhas, milheirinhas ou piscos-de-peito-ruivo são apenas alguns exemplos.

A elevada diversidade biológica presente na Quinta é também explicada pelas centenas de árvores notáveis aqui presentes. Sejam pinheiros, eucaliptos, carvalhos ou até uma sequoia, estes verdadeiros gigantes verdes centenários criam uma série de nichos ecológicos para outras espécies.

Este valioso património natural tornou a Quinta de São Francisco o cenário ideal para a criação de uma plataforma única de educação ambiental. Para além da investigação científica de referência, o espaço acolhe, desde 2020, o projeto pedagógico Floresta do Saber, especialmente vocacionado para as escolas. Através dele, o Instituto RAIZ promove uma verdadeira literacia da floresta, assente no conhecimento científico mais recente.