O sono não é igual para todos

9 de Junho 2026

Deitar de costas, de lado ou de barriga para baixo, fechar os olhos e adormecer. Simples, não é? Nem por isso. O que para nós parece uma rotina banal, representa, para muitas espécies, um delicado equilíbrio entre descanso e sobrevivência.

Dormir é uma necessidade biológica praticamente universal. O cérebro e o corpo precisam de períodos de descanso para recuperar energia, consolidar memórias e manter funções essenciais. O problema é que dormir também torna os animais mais vulneráveis. Enquanto descansam, deixam de vigiar predadores, perdem capacidade de reação e, em muitos casos, ficam fisicamente expostos.

Ao longo da evolução, cada espécie foi encontrando soluções para resolver este dilema.

Dormir sem deixar de estar alerta

Os golfinhos estão entre os exemplos mais impressionantes. Como são mamíferos, precisam de subir regularmente à superfície para respirar. Se entrassem num sono profundo como o nosso, corriam o risco de se afogar.

A solução evolutiva encontrada é extraordinária: dormem apenas com metade do cérebro de cada vez. Enquanto um hemisfério cerebral descansa, o outro mantém-se ativo, permitindo ao animal continuar a nadar, respirar e vigiar o ambiente. Depois, os papéis invertem-se. Este fenómeno é conhecido como sono uni-hemisférico e também ocorre em algumas aves.

Entre as aves, esta capacidade ajuda sobretudo na deteção de predadores. Em determinadas situações, conseguem mesmo dormir com um olho fechado e outro aberto, mantendo sempre uma parte do cérebro alerta.

Algumas espécies de aves levam esta adaptação ainda mais longe. Estudos com andorinhões mostraram que podem permanecer meses seguidos no ar, alimentando-se e deslocando-se sem pousar. Os investigadores acreditam que aproveitam momentos de voo planado para realizar breves episódios de sono. Já no caso das fragatas, aves marinhas que passam longos períodos sobre o oceano, foi possível confirmar, através da medição da atividade cerebral, que dormem, efetivamente, durante o voo.

Soluções criativas

No caso das girafas, o desafio é diferente. Deitar-se para dormir torna-as particularmente vulneráveis aos predadores e, devido ao seu tamanho, levantar-se rapidamente, se for necessário fugir, não é tarefa simples.

Elas conseguem descansar e dormitar de pé, como fazem outros grandes herbívoros, mas os momentos de sono mais profundo exigem que se deitem no chão. Por isso, as girafas selvagens dormem muito pouco e em períodos curtos. Estudos realizados em liberdade sugerem que podem acumular apenas cerca de 30 minutos a duas horas de sono por dia, distribuídos por várias sestas breves. Os seus momentos de sono mais profundo duram, geralmente, apenas alguns minutos.

Os morcegos adotaram uma estratégia completamente diferente. Dormem pendurados de cabeça para baixo, muitas vezes em grutas, árvores ou edifícios. Esta posição não é desconfortável para eles: os tendões das patas bloqueiam naturalmente quando se agarram, permitindo-lhes permanecer suspensos quase sem esforço muscular. Além disso, ficar pendurado facilita a descolagem rápida em caso de perigo, algo importante para animais que não conseguem levantar voo facilmente a partir do solo.

Também os pássaros que vemos a dormir empoleirados nos ramos têm um truque anatómico engenhoso. Quando pousam, o peso do corpo faz com que os tendões das patas se contraiam automaticamente em torno do ramo. É uma espécie de mecanismo de bloqueio natural que lhes permite adormecer sem cair.

O sono é uma necessidade biológica amplamente partilhada no reino animal. O que muda é a forma de a satisfazer.