Na opinião de Vítor Poças, a indústria é uma peça fundamental quando se procura a redução do risco de incêndios: “É a maior plataforma de valorização da floresta e o caminho para transformar risco em valor económico”.

Quais considera ser as mudanças mais urgentes na gestão do território para reduzir o risco de incêndio?
A floresta portuguesa só será protegida se for economicamente viável e produtiva. Apenas uma floresta com valor pode atrair investimento, talento e gestão, garantindo presença de pessoas no território, mais defesa e proteção, redução de ignições criminosas, maior investigação e qualidade da biomassa. Em 2024 registaram-se 6 255 incêndios que devastaram 137 651 hectares — 82 mil ha de povoamentos florestais, 46 mil ha de matos e 9,5 mil ha agrícolas. Estes números provam que a ausência de gestão cria continuidade de combustível e multiplica o risco.
A segunda mudança é assegurar uma gestão integrada da paisagem, articulando floresta, agricultura e espaços naturais, com coordenação intermunicipal e intersetorial. O risco não respeita limites administrativos. Setembro de 2024 concentrou 92% da área ardida do ano, revelando como clima extremo, falhas estruturais e combustíveis acumulados conduzem a catástrofes.
A terceira é garantir instrumentos legais claros e de fiscalização efetiva. As obrigações de legislar, policiamento, investigação e punição são funções do Estado central. A gestão de combustível, faixas de proteção e manutenção de povoamentos só funcionam se houver meios humanos e financeiros permanentes, não medidas episódicas após cada tragédia.
O que impede Portugal de aplicar de forma consistente o conhecimento técnico e científico que tem?
O primeiro obstáculo é a fragmentação da propriedade: milhões de parcelas, muitas sem uso ativo, inviabilizam intervenções eficazes em escala.
O segundo é a falta de retorno económico: práticas preventivas e silvícolas são dispendiosas e não compensam os pequenos proprietários sem incentivos adequados ou cadeias de valorização.
O terceiro é a descontinuidade política: planos e relatórios existem, mas mudam a cada ciclo governamental. Falta estabilidade, financiamento plurianual e articulação entre ministérios.
Por fim, não podemos ignorar o fator humano: incendiarismo e mau uso do fogo. Em 2024, 34% dos incêndios investigados tiveram origem criminosa e 13% resultaram de queimadas. A estes somam-se mais de 40% classificados como “causa desconhecida”, que na prática correspondem, em larga maioria, a ignições dolosas.
Onde pode a indústria de base florestal ter maior impacto positivo?
A indústria é a maior plataforma de valorização da floresta e o caminho para transformar risco em valor económico:
– Valoriza resíduos e biomassa, tornando rentável a limpeza e removendo combustível da floresta.
– Promove inovação e resiliência, apoiando espécies e modelos de silvicultura mais adaptados ao clima futuro.
– Atua em parceria no território, através de contratos de gestão, certificação, boas práticas e programas de sensibilização.
– Além disso, é uma voz ativa na definição de políticas públicas, defendendo incentivos que conciliem economia, sustentabilidade e prevenção.
Em suma: sem valor económico não há gestão, sem gestão não há prevenção, e sem prevenção não há futuro para a floresta portuguesa. Para gerar valor é necessário emparcelar, agrupar e gerir. Porque a floresta não arde sozinha: arde quando é abandonada.
Por Vítor Poças, Presidente da Associação das Indústrias de Madeira e Mobiliário de Portugal (AIMMP)
Nota: Artigo publicado originalmente na edição nº 16 da revista My Planet, em novembro de 2025.