“Mexe-se nas políticas… como se lavam camisas!”

9 de Julho 2026

Victor Louro, Engenheiro Silvicultor, partilha a sua visão sobre medidas e políticas de gestão do território que permitam reduzir o risco de incêndio e aplicar do conhecimento técnico e científico que Portugal tem nesta matéria.

Quais considera ser as mudanças mais urgentes na gestão do território para reduzir o risco de incêndio?

Antes da paisagem entendo como essencial seguir o Plano (Plano Nacional Gestão Integrada Fogos Rurais) que está aprovado! Isto porque ele foi discutido e estabelecido com a participação de muitos técnicos e investigadores e gente implicada no terreno, nomeadamente das organizações de produtores; e aprovado por quem tinha poder para tal.
Uma das chagas sistematicamente — e justamente — apontadas às “políticas florestais” é a falta de continuidade: mexe-se nas políticas… como se lavam camisas! E isso é incompatível com o carácter de longo prazo que caracteriza as florestas (mesmo as plantadas), assim como impede a confiança dos actores com ela relacionados. A outra grande chaga, comum a tantas outras actividades e sectores, é a ausência de avaliação das políticas lançadas: muda-se por… inspiração ou convicção. Ora isso é inaceitável no que à questão dos incêndios diz respeito, porque o país dispõe exemplarmente de um Plano bem feito, que contempla — e executa — avaliações periódicas.
Sem prejuízo (antes pelo contrário) do que está contido no Plano, aflige-me a fixação em querer fazer tudo da maneira estabelecida, em toda a parte ao mesmo tempo, porque as condições físicas, e sobretudo sociais, são muito diversas. Creio — no sentido mesmo de acreditar fundadamente — que o que melhor resulta é o que é abraçado pelos designados destinatários (discordo do termo, porque devem ser parte das políticas).
Compreendendo isto, e sem prejuízo dos esforços que incumbem às instituições do Estado no que se relaciona, por exemplo, com o assentamento das faixas de gestão de combustível, parece-me primordial ganhar as populações para as pequenas coisas — as que estão ao seu alcance imediato e são objecto das suas conversas e preocupações — primeiro; e progressivamente ir avançando para coisas mais complexas. É claro que em muitas situações poder-se-á avançar em simultâneo: por exemplo, o assentamento de faixas limpas de vegetação em redor das aldeias é perfeitamente compatível com o desenvolvimento simultâneo de iniciativas de Áreas Integradas de Gestão da Paisagem. E à medida que as iniciativas vão tendo adesão e sucesso, elas alargar-se-ão em mancha de óleo.

O que impede Portugal de aplicar de forma consistente o conhecimento técnico e científico que tem?

Temos conhecimento científico e técnico. Mas dificilmente os aplicamos…

Creio que um dos estrangulamentos está na concepção das próprias instituições que devem integrá-los e aplicá-los. Porém, o factor principal radica na falta de autoridade política. Não, não estou a defender a ditadura! Autoridade política ganha-se, não se impõe: através da participação das pessoas, da sua adesão (mesmo adequando as medidas inicialmente projectadas), e do respeito por essas medidas, desde logo pelos responsáveis políticos. Porque inércia e resistência, não faltam. E a Política não pode ser cata-vento.

Onde pode a indústria de base florestal ter maior impacto positivo?

As indústrias de base florestal devem ter envolvimento directo e indirecto no desenvolvimento das acções que ajudem a alcançar os objectivos das políticas. Podem estabelecer parcerias que induzam melhorias no plano técnico e contrapartidas nos preços, por exemplo. Devem ultrapassar os seus objectivos específicos (interesses imediatos de abastecimento e lucro) e integrarem nos seus esforços outras visões, mais amplas, que vão ao encontro dos interesses dos destinatários e de acordo com os objectivos das políticas aprovadas.

 

Victor Louro, Engenheiro Silvicultor

 

Notas:

Por opção do autor, este texto não segue as regras do acordo ortográfico em vigor.

Artigo publicado originalmente na edição nº 16 da revista My Planet, em novembro de 2025.