Na opinião de Miguel Freitas, é possível construir uma floresta mais resiliente ao fogo. Mas, para isso, são necessárias políticas públicas firmes e coerentes, que se traduzam em ação no sentido de reforçar a prevenção e melhorar a coordenação, integração e especialização das forças de combate.

No calor do verão o cenário repete-se: grandes incêndios, aldeias em pânico, famílias a proteger o que podem, bombeiros exaustos, casas destruídas, paisagens reduzidas a cinzas. Muito dinheiro anunciado, que vai chegando, quando chega, mitigado ao terreno. As soluções raramente tocam no essencial: transformar as paisagens, reanimar a economia dos territórios e garantir um futuro sustentável para quem lá vive. A floresta continua a degradar-se, perdendo valor e resiliência.
As políticas públicas parecem condenadas ao fracasso: apresentam-se planos, desenham-se estratégias, anunciam-se reformas, mas na prática pouco muda. Falta execução, os apoios chegam tarde, são intermitentes e mal direcionados. Parece evidente que o país continua longe de dar uma resposta eficaz ao problema estrutural dos fogos rurais.
No terreno, as comunidades resistem, reinventam-se, procuram soluções. Desde logo, é preciso compreender as razões que moldam as decisões dos proprietários florestais. Valorizar quem ainda lá está presente, quem conhece o terreno, quem quer fazer diferente. Sim, há ausência e abandono. Mas também há conhecimento, esforço, organização e vontade de mudança. São precisas políticas públicas ajustadas para apoiar, orientar e mobilizar esses agentes.
No plano dos incêndios rurais o guião está escrito. É necessário reforçar a prevenção e melhorar a coordenação, integração e especialização das forças de combate. O Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais está a ser implementado num modelo participativo e adaptativo, que permite o diálogo e a aprendizagem conjunta e uma aplicação flexível de base local. Pede-se um planeamento com estimativas realistas e fontes de financiamento objetivas.
As redes de proteção — com faixas de gestão de combustível e mosaicos — já estão no terreno. Está em curso a compensação aos proprietários afetados pela instalação da Rede Primária — as “autoestradas” de proteção da floresta —, concretizada em apenas 30% do total. É altura de reavaliar este modelo, encontrar métodos que permitam uma análise mais precisa dessas redes e estabelecer prioridades. Também na Rede Secundária, em que há múltiplos interventores. E, acima de tudo, promover uma perspetiva integrada entre redes de proteção e espaços com gestão ativa.
O país do minifúndio está amarrado a problemas como fragmentação excessiva, heranças indivisas, terras sem dono conhecido e falta de cadastro em parte importante do território. A estas dificuldades junta-se a falta de instrumentos legais claros e operacionais que articulem o direito de propriedade com o direito de gestão. Há condições políticas para avançar com a reforma da propriedade.
Há ainda um outro consenso: precisamos de mais e melhor gestão florestal, especialmente no minifúndio. Temos de aproveitar o potencial da gestão agregada dando novo fôlego às Zonas de Intervenção Florestal. Ter um programa simples e robusto para atuar à escala da paisagem. Consolidar as Áreas Integradas de Gestão da Paisagem, os Agrupamentos de Baldios e o programa Floresta Ativa. Olhar para as experiências que resultam, como o programa “Limpa e Aduba” e apoiar a sua difusão. Em suma, fortalecer as organizações locais, reforçar as relações entre produção e indústria e garantir apoios estáveis. Isto é, apostar na inovação social.
É importante dar mais valor à floresta, compatibilizar sistemas produtivos intensivos com a perspetiva ecossistémica, estruturar novos mercados de capital natural que incentivem um banco de créditos de carbono e créditos de natureza, através dos quais se podem remunerar atividades essenciais para contrariar a tendência de abandono de áreas cruciais para a conservação da natureza, muito impactadas pelo fogo, criar modelos de gestão contínua e múltiplos aproveitamentos que permitam períodos de retorno mais curtos na floresta de ciclos longos.
A ciência e a inovação tecnológica fazem parte da resposta. Uma nova forma de pensar a floresta — aliando produtividade e resiliência —, e o uso de tecnologias digitais, robótica, inteligência artificial e maquinaria moderna, podem tornar o setor mais apelativo, rentável e seguro. Também no combate aos incêndios, a transformação digital e a inteligência artificial estão a revolucionar a previsão e a análise operacional.
Mais do que boas ideias no papel, o país precisa de políticas públicas firmes e coerentes, que se traduzam em ação. Só assim será possível transformar os territórios e construir uma paisagem florestal que resista ao fogo — e ao esquecimento.
Por Miguel Freitas, Professor na Universidade do Algarve
Nota: Este artigo foi publicado originalmente na edição nº 16 da revista My Planet, em novembro de 2025.