O Professor Joaquim Sande Silva aponta a gestão florestal como a chave para reduzir o risco de incêndios. Mas revela também aquilo que, em sua opinião, está a impedir que haja mais área gerida em Portugal.

Quais considera ser as mudanças mais urgentes na gestão do território para reduzir o risco de incêndio?
A mudança mais urgente é gerir. Os terrenos abandonados que já foram antes cultivados sofrem frequentemente um percurso em termos de sucessão ecológica que faz aumentar o risco estrutural de incêndio e que contribui frequentemente para a degradação ecológica, devido à expansão de espécies exóticas invasoras.
No entanto, é fácil enunciar que é necessário gerir, o difícil é introduzir essa gestão. Até agora não foram encontrados, e duvido que venham a ser, mecanismos que permitam aumentar de forma significativa a percentagem gerida do território nacional.
Há a distinguir dois tipos de gestão. A gestão da floresta produtiva, feita com profissionalismo pelas empresas de celulose e por alguns proprietários individuais. Há também a gestão com fins de conservação. Esta última opção tem a vantagem, no caso da conservação da floresta autóctone, de permitir a transição para um estádio onde deixa de ser necessário gerir, pois o sistema entra em equilíbrio devido ao ensombramento das copas. Para além do incremento da gestão com fins de produção, deveríamos investir mais na floresta de conservação, devido aos benefícios quer do ponto de vista da Defesa da Floresta Contra Incêndios, quer do ponto de vista ambiental, quer ainda por se tratar de um investimento sustentável que se perpetua no tempo.
O que impede Portugal de aplicar de forma consistente o conhecimento técnico e científico que tem?
A razão é simples: não existem unidades de gestão viáveis, suficientes em número e dimensão, que permitam essa aplicação. Na maior parte dos países existe uma proporção de floresta pública muito elevada, onde é possível fazer ordenamento florestal e aplicar o conhecimento científico. Noutros países existe uma área importante de floresta industrial, onde também é possível fazer um trabalho profissional de gestão. Em Portugal não existe nada disso. Uma boa parte da floresta de eucalipto está abandonada e a floresta pública é quase inexistente, o que faz com que seja muito difícil levar o conhecimento técnico e científico ao terreno.
Onde pode a indústria de base florestal ter maior impacto positivo?
A indústria pode ter um impacto positivo quer na floresta industrial quer na floresta de conservação. Na floresta industrial há bons exemplos, como o Projeto Melhor Eucalipto, que só peca por não chegar a um número maior de proprietários. Já ao nível da floresta de conservação, a indústria faz muito pouco. O investimento na floresta de conservação deveria funcionar como uma contrapartida à ocupação de vastas áreas do território com floresta industrial. A indústria pode e deve ser mecenas de projetos de recuperação de floresta nativa. Por outro lado, deveria ser mais fomentado o restauro ecológico de galerias ripícolas, que podem funcionar até como barreira contra fogos junto da floresta de produção.
Por Joaquim Sande Silva, Professor na Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Coimbra
Nota: Artigo publicado originalmente na edição nº 16 da revista My Planet, em novembro de 2025.