Espécies em recuperação

27 de Julho 2026

Na origem da atual perda de biodiversidade está, sobretudo, a atividade humana. Mas o reverso também é possível. Programas de conservação têm mostrado que, quando lhe são dadas condições favoráveis, a natureza responde. Há espécies que estão, de facto, a recuperar.

Durante muitos anos, as notícias sobre biodiversidade foram dominadas por uma ideia: estamos a perder espécies a um ritmo sem precedentes. Essa realidade não se alterou e continua a exigir ações urgentes. Mas essa não é a história toda. Nos últimos anos, têm surgido exemplos que mostram que, quando a conservação é consistente, a natureza consegue recuperar.

Proteger e restaurar habitats, combater a caça ilegal, reforçar populações através de programas de reprodução, envolver as comunidades locais e aprofundar o conhecimento científico são algumas das medidas que têm permitido inverter o declínio de várias espécies. Os resultados raramente são imediatos, mas demonstram que investir na conservação pode fazer a diferença. Vale a pena conhecer alguns exemplos, em Portugal e na Península Ibérica, que mostram que proteger a biodiversidade é um investimento que dá frutos.

Lince-ibérico: uma recuperação exemplar

Em 2001, o lince-ibérico (Lynx pardinus) tornou-se o primeiro felino do mundo a ser considerado “Criticamente em perigo”. Há pouco mais de 20 anos, restavam menos de uma centena de animais em toda a Península Ibérica. Hoje, é um dos casos de recuperação de espécies mais bem-sucedidos da Europa.

Num esforço concertado entre Portugal e Espanha, esta recuperação foi possível graças a um trabalho continuado de reprodução em cativeiro e reintrodução na natureza, à recuperação de habitats e ao reforço das populações de coelho-bravo, a principal presa do lince. Em 2015, a espécie passou da categoria “Criticamente em Perigo” para “Em Perigo” e, em 2024, voltou a melhorar o seu estatuto de conservação, passando a ser considerada “Vulnerável”.

A população do lince-ibérico na Península Ibérica atingiu, em 2025, 2663 exemplares, o maior número alguma vez registado e quase o dobro do observado em 2021. Destes, 396 habitam em Portugal.

O voo da águia-imperial volta aos céus nacionais

A águia-imperial (Aquila adalberti), a única ave de rapina endémica da Península Ibérica, foi considerada extinta em Portugal na década de 1980. O seu regresso parecia improvável.

Mas, tal como aconteceu com o lince-ibérico, a cooperação entre Portugal e Espanha revelou-se determinante. Em 2003, foi identificado um casal reprodutor com ninho no Parque Natural do Tejo Internacional. Foi o início do regresso da espécie ao território nacional.

Desde então, a população tem vindo a recuperar. Em 2023, o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) identificou 21 casais reprodutores e 20 crias voadoras em território nacional. Apesar desta evolução positiva, a espécie continua classificada como “Criticamente em Perigo”, o que mostra que há ainda um longo caminho a percorrer.

Abutre-preto: um regresso tímido, mas consistente 

O abutre-preto (Aegypius monachus) é a maior ave de rapina da Europa e uma das maiores do mundo. Durante décadas, esteve extinto em Portugal. O seu regresso começou a desenhar-se em 2010, quando voltou a nidificar no país, beneficiando das medidas de conservação e proteção legal implementadas em Espanha.

Segundo dados do ICNF, existiam, em 2024, cinco colónias identificadas em território nacional. O projeto “Aegypius return”, que procura consolidar e expandir a população desta espécie, indicava nesse mesmo ano a existência de cerca de 80 casais a nidificar em áreas protegidas como o Parque Natural do Tejo Internacional, a Serra da Malcata e o Parque Natural do Douro Internacional.

Embora os sinais sejam encorajadores, a espécie continua classificada como “Criticamente em Perigo” em Portugal.

Lobo-ibérico: recuperar continua a ser o maior desafio

Nem todas as espécies respondem da mesma forma aos esforços de conservação. O lobo-ibérico é um desses casos: apesar das medidas adotadas ao longo das últimas décadas, a recuperação da população continua a ser desafiante.

Desde 1988, o lobo-ibérico (Canis lupus signatus) é uma espécie estritamente protegida em Portugal (Lei n.º 90/88, de 13 de agosto). É, aliás, a única espécie da fauna portuguesa abrangida por legislação nacional específica.

Apesar disso, o início da recuperação tem sido mais difícil do que nos casos anteriores. No censo de 2019-2021, os dados mais recentes disponíveis, foram identificadas 58 alcateias em território nacional, menos cinco do que no Censo Nacional do Lobo de 2002-2003.

Isso não significa, contudo, que os esforços de conservação tenham sido em vão. Segundo o ICNF, a proteção legal da espécie contribuiu para travar o ritmo do seu declínio, quando comparado com o período anterior à entrada em vigor da lei.

Para reforçar esse esforço, foi criado o Programa Alcateia 2025-2035, que pretende criar condições para que o lobo-ibérico alcance, finalmente, um estado de conservação favorável.

Percursos diferentes, a mesma lição

As histórias do lince-ibérico, da águia-imperial, do abutre-preto e do lobo-ibérico mostram que não existem soluções rápidas ou universais para recuperar uma espécie. Apesar das diferenças entre elas, todas demonstram que a conservação exige tempo, conhecimento científico, monitorização e investimento continuado.

Nem todos os casos apresentam o mesmo grau de sucesso e nem todos os desafios estão resolvidos. Ainda assim, demonstram que recuperar espécies é possível.