“É preciso apanhar os criminosos que ateiam fogo às nossas florestas”

17 de Setembro 2026




Combater a criminalidade e vigiar as florestas e as zonas rurais e agrícolas são medidas que António Arnaut considera prioritárias. Além disso, defende um maior investimento em brigadas de primeira intervenção.

Qual a prioridade absoluta após um grande incêndio?

Avaliar os estragos, analisar a origem do incêndio e definir o que fazer para minorar o prejuízo. É fundamental cortar as árvores queimadas e removê-las do terreno o mais rapidamente possível. Em seguida, importa mobilizar os terrenos para incorporar as cinzas, combater a erosão e evitar que as próximas chuvas arrastem as cinzas e os resíduos do incêndio para as linhas de água, contribuindo assim para a sua poluição.

O que costuma falhar no pós-incêndio?

Não temos escoamento para as árvores queimadas. Após o incêndio há um excesso de oferta e os profissionais do setor não têm capacidade de resposta para cortar e retirar, dos terrenos, as árvores queimadas com a celeridade desejada, de modo a permitir ao proprietário fazer as intervenções necessárias o mais rapidamente possível. O mercado fica desestabilizado: há uma oferta superior à procura e os preços descem.

Que recomendações deixa para os decisores?

Que não se refugiem na ideia, muitas vezes transmitida pela comunicação social, de que a culpa dos incêndios é a falta de limpeza dos terrenos agrícolas, rurais e florestais. Está estatisticamente provado que grande percentagem dos incêndios tem origem criminosa — cerca de 42% — e que esses incêndios, por exemplo, em 2024, foram responsáveis por 84% da área ardida em Portugal. Por isso, eu sugiro: combatam a criminalidade, vigiem as florestas e as zonas rurais e agrícolas, façam um patrulhamento cerrado dessas zonas e apanhem os criminosos que ateiam fogo às nossas florestas.

Não atribuam as culpas aos eucaliptos — isso é uma teoria que só revela ignorância sobre o assunto. Se fizerem uma análise das zonas de produção de eucalipto geridas, verão que nessas zonas a propagação de um incêndio é muito menor.

Invistam mais em vigilância e em brigadas de primeira intervenção: quanto mais cedo atacarmos um incêndio, maior é a probabilidade de o apagar.

Julgo também que deveria haver uma maior interligação entre o comando de um grande incêndio e os bombeiros locais; são estes que melhor conhecem o terreno onde o fogo está a deflagrar, os ventos predominantes, os acessos e os melhores locais onde o combater. Com frequência vemos que quem está a comandar o incêndio tem um desconhecimento grande do local, o que em nada ajuda ao combate.

Por António Arnaut, Produtor florestal

Nota: Artigo publicado originalmente na edição nº 16 da revista My Planet, em novembro de 2025.