Nuno Calado propõe medidas concretas que, na sua opinião, contribuiriam decisivamente para uma floresta menos vulnerável. A indústria deve assumir, nesta matéria, um papel interventivo, no sentido de promover uma maior área de gestão ativa.

Quais considera ser as mudanças mais urgentes na gestão do território para reduzir o risco de incêndio?
A transformação da floresta portuguesa exige um conjunto alargado de mudanças, aplicadas de forma integrada e sustentada por políticas públicas consistentes, de longo prazo, que articulem investimento público e privado. Importa reforçar a rentabilidade dos produtores, reduzir o risco de incêndio e garantir o abastecimento de matéria-prima, tendo presente que 98% da floresta é privada.
Entre as prioridades destacam-se a reestruturação fundiária e a gestão ativa da floresta e do território. A fragmentação extrema da propriedade, marcada pelo predomínio de mini e microfúndios e pela ausência de cadastro, dificulta transações, acesso à terra e agregação predial, travando o investimento privado. Os modelos de gestão conjunta são ainda pouco expressivos, sobretudo em espécies de ciclo longo, o que limita a escala necessária para rentabilizar a gestão e aumenta a perceção de risco, em particular face à recorrência dos incêndios. Para ultrapassar estes bloqueios, é urgente operacionalizar as recomendações do Grupo de Trabalho para a propriedade rústica e implementar medidas complementares:
- Integração do BUPI no mercado fundiário, permitindo identificar proprietários interessados em vender;
- Linhas de crédito bonificado ou subsídios para aquisição de propriedade rústica com fins florestais;
- Via verde para transações fundiárias, gratuitas e com benefícios fiscais;
- Reforço do programa de emparcelamento em áreas vulneráveis;
- Contratos-programa com organizações de produtores florestais, criando Áreas de Gestão Conjunta que mobilizem pequenos proprietários e viabilizem investimentos.
Só com escala, organização e mecanismos de confiança será possível garantir uma floresta mais resiliente, rentável e sustentável.
O que impede Portugal de aplicar de forma consistente o conhecimento técnico e científico que tem?
Relativamente à fileira do pinho, as deficiências na aplicação de conhecimento técnico e científico devem-se à falta de uma rede de extensão florestal, na dificuldade de acesso à informação, na ausência de áreas de demonstração e pela capacitação insuficiente dos proprietários e técnicos.
A Sonae Arauco, quer diretamente, quer através do trabalho desenvolvido através de outras organizações das quais faz parte (casos do Centro Pinus e do Colab ForestWISE) tem desenvolvido várias iniciativas para reforçar a transferência e aplicação do conhecimento.
Onde pode a indústria de base florestal ter maior impacto positivo?
Num país onde cerca de 98% da área florestal é de propriedade privada, é essencial trabalhar em estreita colaboração com os proprietários, promovendo uma maior rentabilidade dos seus investimentos de forma a reforçar a gestão ativa da floresta. Para esse fim a Sonae Arauco tem realizado investimentos em:
- Experimentação em Portugal de diferentes espécies, proveniências e famílias de pinheiro — como exemplificado pelo projeto Gene Radiata e rePlant —, visando disponibilizar aos produtores florestais plantas de elevada qualidade genética e produtividade, capazes de aumentar a rentabilidade de toda a cadeia de valor do pinheiro;
- Iniciativas de demonstração e de transferência de conhecimento aplicado à gestão do pinhal, facilitando a adoção de boas práticas de silvicultura e valorização florestal;
- Parcerias (partilha de risco) ou Arrendamentos para alavancar investimento privado para a gestão ativa.
Por Nuno Calado, Wood Regulation & Sustainability Manager na Sonae Arauco
Nota: Artigo publicado originalmente na edição nº 16 da revista My Planet, em novembro de 2025.