As penas que falam

17 de Agosto 2026

Há aves com cristas exuberantes, colares de penas, tufos que parecem orelhas ou pestanas que desafiam a lógica. Não são apenas extravagâncias estéticas. Ao longo de milhões de anos, a evolução transformou as penas num sofisticado sistema de sinais, capaz de revelar quem é quem, afastar um rival ou ajudar a conquistar um parceiro.

Como comunicam as aves? Através do canto, pensamos nós. E não estamos errados. Mas o som é apenas uma parte da conversa, na qual também entram as penas.

As mensagens podem assumir formas muito diferentes. Nas catatuas, a crista funciona quase como um barómetro do estado da ave. A sua posição e o significado variam entre espécies e consoante o contexto: pode ser erguida perante algo que desperta a atenção, em situações de excitação ou alarme, durante a corte ou num confronto com outra ave. Nos machos do combatente (Calidris pugnax), as grandes golas de penas exibidas durante a época reprodutiva estão associadas a diferentes estratégias de acasalamento. Os machos territoriais, geralmente de gola escura, defendem pequenas áreas nas arenas de corte. Já os chamados “satélites”, habitualmente de gola branca, não defendem território: juntam-se aos primeiros e podem acasalar com as fêmeas que ali chegam. Por seu lado, o macho da ave-do-paraíso-rei-da-Saxónia (Pteridophora alberti) tem duas extraordinárias penas que nascem atrás dos olhos e podem atingir cerca do dobro do comprimento do corpo. Durante a corte, ergue-as e movimenta-as à volta da cabeça para as exibir à fêmea. São tão invulgares que, quando os primeiros exemplares chegaram à Europa, no final do século XIX, houve ornitólogos que suspeitaram que se tratava de uma falsificação.

A plumagem pode transmitir muita informação. O tamanho, a forma, a localização ou a cor de determinadas manchas e padrões podem ajudar a indicar a espécie, o sexo, a idade, a condição reprodutiva ou até a posição numa hierarquia. No pardal-doméstico (Passer domesticus), por exemplo, o tamanho da mancha escura no peito dos machos tem sido associado à dominância social.

Em algumas corujas e mochos, os tufos de penas no topo da cabeça são facilmente confundidos com orelhas. Mas nada têm a ver com a audição, uma vez que os verdadeiros ouvidos se encontram nas laterais da cabeça. A função destes penachos não está totalmente esclarecida pela ciência e pode variar entre espécies, mas há algumas evidências de que participam na comunicação visual e podem também contribuir para a camuflagem.

Cores que não conseguimos ver

Há, porém, uma parte desta conversa que nos escapa, literalmente, aos olhos. Muitas aves veem radiação ultravioleta, invisível para os seres humanos, e as penas podem refletir comprimentos de onda nessa região do espectro. Isto significa que duas aves que nos parecem praticamente iguais podem ser bastante diferentes quando vistas por outra ave. E não se trata apenas de uma possibilidade teórica. Numa experiência com peitos-azuis (Luscinia svecica), investigadores reduziram artificialmente a reflexão ultravioleta das penas da garganta de alguns machos. Estes demoraram mais tempo a conseguir parceira do que os machos do grupo de controlo.

A própria cor das penas pode ter origens diferentes. Vermelhos e amarelos podem resultar de pigmentos, como os carotenoides obtidos através da alimentação. Já muitos azuis, iridescentes e reflexos ultravioletas resultam da estrutura microscópica das penas e da forma como esta interage com a luz. Ou seja, uma pena pode comunicar não apenas através da forma que adquiriu, mas também da maneira como manipula a luz.

Ser exuberante pode compensar

Produzir e manter estes ornamentos de penas exige energia e recursos. Esse investimento tem custos reais: num estudo que comparou nove espécies com plumagens ornamentais com outras nove espécies aparentadas sem esses ornamentos, as primeiras dedicavam significativamente mais tempo à manutenção das penas.

E algumas estruturas são tão exageradas que parecem contrariar a lógica da sobrevivência: tornam a ave mais visível aos predadores ou dificultam movimentos tão importantes como voar e procurar alimento. Então, por que razão a evolução não eliminou estes aparentes excessos?  Porque sobreviver é apenas parte da equação. É preciso também reproduzir-se. Se uma cauda enorme, uma gola vistosa ou duas penas desproporcionadas aumentarem as hipóteses de conseguir parceiro, a característica pode ser favorecida pela seleção sexual, apesar dos custos.

O resultado é um vocabulário visual de extraordinária diversidade. Para perceber uma ave, afinal, não basta ouvi-la cantar. Também é preciso saber ler-lhe as penas.