Permitir a recuperação natural é, muitas vezes, a melhor opção, considera a investigadora Otília Correia. Mas há situações em que esta deve ser complementada com a plantação de espécies florestais menos suscetíveis ao fogo, favorecendo a criação de florestas mais resistentes e resilientes.

Os fogos, de origem humana ou não, modelaram a vegetação mediterrânica desde tempos remotos, favorecendo espécies mais adaptadas ao fogo, i.e., ardem e propagam o fogo com extrema facilidade, mas também recuperam rapidamente, possuindo elevada resiliência a este fator.
A vegetação mediterrânica, juntamente com as florestas de coníferas e as savanas, são os ecossistemas com maior suscetibilidade ao fogo, uma vez que são comunidades constituídas por espécies altamente inflamáveis e que acumulam grande quantidade de biomassa.
A capacidade das espécies para suportar o fogo está associada a diferentes mecanismos de regeneração pós-fogo: i) rebentação a partir de órgãos subterrâneos (raízes, toiças ou a partir do tronco, bolbos ou rizomas), ii) germinação a partir do banco de sementes no solo ou nas copas das árvores em estruturas protetoras lenhosas, sendo a germinação estimulada pelo fogo. Algumas espécies também possuem uma estratégia mista, que combina os dois tipos de regeneração — rebentação e germinação.
Após o fogo, a estrutura da vegetação é alterada apenas por um período muito curto e as espécies restabelecem-se muito rapidamente, num processo de recuperação natural das comunidades, designado por autossucessão.
Na maior parte dos casos devido à capacidade de regeneração das espécies, o mais sensato será permitir a recuperação natural das comunidades e, nalgumas situações, complementar com plantação de espécies florestais menos suscetíveis aos fogos, como as espécies de folha larga, permitindo a criação de florestas mais resistentes e resilientes.
A necessidade de desenvolver medidas de recuperação deve ser baseada na identificação de situações com alto risco de impacte nos ecossistemas afetados, sendo útil começar por identificar as áreas mais vulneráveis em termos de degradação e a sua capacidade de regeneração, i.e., o seu potencial de autossucessão. Os ecossistemas que demonstrem escassa regeneração espontânea e que tendem para uma degradação irreversível (ou recuperação lenta) deverão ser o alvo preferencial das ações de recuperação.
A recuperação de áreas ardidas deve incluir a conservação dos recursos, bens e serviços proporcionados pelos ecossistemas afetados, como por ex. i) a conservação do solo e da água, ii) o aumento da capacidade de recuperação dos ecossistemas e a prevenção de incêndios, iii) o aumento da qualidade do ecossistema e da paisagem (promovendo a biodiversidade e a sua resiliência).
As ações de intervenção pós-fogo devem ter como objetivo a redução do escoamento superficial e da erosão do solo, de modo a evitar efeitos colaterais (cheias, enxurradas e sedimentação em rios e albufeiras) e a promoção da recuperação dos ecossistemas. Ações mais comuns para reduzir o escoamento superficial, o risco de erosão e promover a infiltração: i) sementeira (aérea ou terrestre) com cobertura do solo com palha ou outros materiais (mulching), ii) disposição e fixação de toros de árvores segundo as curvas de nível, iii) instalação de barreiras para reter os sedimentos, iv) construção de pequenas represas com pedras, sacos de areia ou gabiões, de modo a promover a infiltração de água, v) abertura de valas ao longo das curvas de nível e cobertura com mantas orgânicas. Para promover a autossucessão pode-se recorrer a sementeiras e/ou plantações.
Para a sementeira deverá ser selecionada uma mistura de sementes de espécies autóctones dos diferentes estratos, como por ex. plantas herbáceas com crescimento rápido, gramíneas e leguminosas para uma proteção do solo, bem como arbustos e árvores que assegurem a sucessão secundária da vegetação. No caso de pinhais jovens, a regeneração natural pode ser difícil, pois ainda não houve produção de sementes e, neste caso, a sementeira, juntamente com mulching, será a técnica mais adequada para a recuperação.
No caso das plantações, evitar extensas plantações monoespecíficas, investindo em plantações mistas de folhosas e coníferas. As novas plantações de árvores e arbustos altos devem promover a diminuição do risco de incêndio e o aumento da resiliência em caso de novos incêndios, assim como a existência de faixas de gestão de combustível.
Não há dúvida que a prevenção dos fogos florestais deve passar por uma gestão da carga dos combustíveis associados aos matos, através de fogos controlados, recurso à pastorícia e limpeza de matos, que deverão ser considerados tendo presente cada situação em particular.
Por Otília Correia, Investigadora do cE3c – Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais, Universidade de Lisboa
Nota: Artigo publicado originalmente na edição nº 16 da revista My Planet, em novembro de 2025.