Aves migratórias: uma anilha para a viagem

21 de Setembro 2026

Capturar uma ave, tirar-lhe as medidas, colocar-lhe uma anilha com um código e libertá-la para que possa seguir viagem. A anilhagem científica ajuda a conhecer as rotas, os desafios e o estado das populações das espécies migratórias.

Entre o final do verão e o início do outono, milhares de aves chegam a Portugal. Para algumas, este é o destino final da viagem migratória; para outras, apenas mais uma paragem que lhes permite recuperar forças antes de voltarem a partir. É nesta altura que decorre, anualmente, a Campanha Internacional de Anilhagem de Aves, na Estação Ornitológica Nacional do Monte do Outeirão, localizada na Reserva Natural das Lagoas de Santo André e da Sancha, no concelho de Santiago do Cacém. Este ano, começou a 27 de julho e estende-se até 10 de outubro.

A reserva é um dos locais mais relevantes no país para acompanhar a migração outonal e acolhe campanhas de anilhagem desde 1977, com o objetivo de aumentar o conhecimento sobre os movimentos migratórios de inúmeras espécies de aves. Pequenas anilhas colocadas nas delicadas patas das aves tornam-se fontes de informação sobre os seus percursos, hábitos, necessidades e o estado das suas populações.


Uma pequena anilha, muita informação

A anilhagem científica é uma técnica de investigação que passa pela captura temporária de uma ave, pela recolha de dados sobre esse exemplar e pela colocação de uma pequena anilha metálica, com um código único, numa das suas patas. Depois de concluído esse processo, a ave é libertada.

São recolhidos dados como espécie, sexo, idade, peso, condição física e várias medidas corporais. Estas informações, quando reunidas ao longo de muitos anos e para um grande número de indivíduos, permitem fazer um retrato das populações e acompanhar a sua evolução.

O alcance da anilhagem torna-se ainda mais evidente quando uma ave volta a ser capturada ou é observada noutro local. A identificação do código na anilha permite relacionar diferentes momentos da sua vida. A análise conjunta dos dados recolhidos em diferentes locais ajuda a identificar áreas importantes para alimentação, reprodução ou repouso, a compreender as rotas migratórias, a acompanhar tendências populacionais e a avaliar ameaças. Pode também contribuir para definir medidas de conservação e melhorar a gestão dos habitats de que as aves dependem.


Um GPS ao contrário

Uma das aplicações mais conhecidas da anilhagem é o estudo das migrações. Portugal encontra-se numa posição privilegiada para este tipo de investigação, funcionando como território de passagem para muitas aves que viajam entre a Europa e África. A anilhagem permite ir desenhando as rotas percorridas pelas aves, ano após ano.

As zonas húmidas assumem particular importância, nestas longas viagens, porque oferecem alimento e locais de descanso. É o caso da Reserva Natural das Lagoas de Santo André e da Sancha, onde já foram anilhadas mais de 170 mil aves, pertencentes a 192 espécies, ao longo das campanhas realizadas desde 1977. Entre as espécies mais observadas e capturadas encontram-se o rouxinol-pequeno-dos-caniços, símbolo da Reserva, a andorinha-das-chaminés e a felosa-musical.


Sabia que pode acompanhar uma sessão de anilhagem?

A Campanha Internacional de Anilhagem de Aves é coordenada pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), através da Central Nacional de Anilhagem. Esta estrutura recolhe e organiza os dados obtidos pelos anilhadores credenciados e assegura a ligação à EURING, a rede que coordena as centrais nacionais de anilhagem na Europa.

Há ainda uma dimensão de participação e sensibilização ambiental. A campanha na Estação Ornitológica Nacional permite acompanhar sessões de anilhagem e conhecer de perto uma atividade científica que reúne investigadores, anilhadores experientes e pessoas que estão a aprender a técnica. É também uma oportunidade para mostrar ao público que conhecer os percursos das aves é essencial para as proteger. As pequenas anilhas podem contar-nos muitas das suas histórias.