Luciano Lourenço considera que tudo ou quase tudo tem falhado após cada grande incêndio. E deixa uma série de recomendações, que passam, entre outras vertentes, por pôr em prática o conhecimento adquirido.

Qual a prioridade absoluta após um grande incêndio?
Abater todos os sobrantes do incêndio que permaneceram de pé e dar-lhes destino adequado. O lenho com valor comercial deverá ser conduzido para as fábricas de transformação. O material sem valor comercial poderá ser transportado para unidades de trituração que o possam rentabilizar. Quando tal não seja viável, pela distância ou pela dificuldade de extração, deverá ser colocado em travessões, tanto nas cabeceiras das linhas de água, como ao longo das vertentes, para diminuir a energia cinética da água proveniente das chuvas e, deste modo, reduzir os seus efeitos erosivos. Neste caso, quando e sempre que for possível triturá-lo no local, deverá ser depois distribuído, de maneira mais ou menos uniforme, ao longo da vertente.
O que costuma falhar no pós-incêndio?
Tudo ou quase tudo. Costuma haver pouca celeridade nas intervenções de abate do material queimado e, sobretudo, nas ações de reabilitação da área queimada.
Para que esta seja viável falta um projeto, concreto e objetivo, com definição de linhas gerais para reabilitação conjunta de cada grande área ardida, facilmente enquadrável numa lógica de criar unidades de gestão que sejam rentáveis, que possa ser fácil e rapidamente adaptado a cada uma delas, de modo que fosse implementado nos seis meses subsequentes ao incêndio, para que, paulatinamente, as áreas queimadas se fossem tornando autossustentáveis e, por conseguinte, defensáveis em termos de incêndios florestais, o que implicará uma nova forma de encarar e resolver o pós-incêndio das grandes áreas ardidas.
Que recomendações deixa para os decisores?
- Pôr em prática o conhecimento adquirido ao longo dos anos, no que respeita a: prevenção, combate e reabilitação.
- Não considerar os grandes incêndios como uma fatalidade e, muito menos, como consequência da mudança climática, uma vez que esta sempre existiu e continuará a existir! Sendo uma calamidade, não podem nem devem ser transformados em fatalidade, como convirá a alguns.
- Não definir conceitos técnico-científicos e linguísticos através de Leis, Decretos-Lei, ou outros diplomas legais, que alterem o significado tradicional de termos há muito consagrados, como foi o caso de transformar “incêndios florestais” em “fogos rurais”, ou de atribuírem a certos conceitos um significado diferente daquele que há muito se encontra consagrado e é usado e entendido dessa forma pelos cidadãos. Em vez desta forma de proceder, deverá atentar-se no significado dos vocábulos existentes em bom português, e passar a usá-los no seu pleno significado, resistindo à tentação de transliterar do inglês ou de usar estrangeirismos desnecessários, uma vez que existem palavras em português, que deveriam ser usadas no seu sentido vernáculo, não só para evitar deturpar o real significado desses termos, mas também para a sua mais fácil compreensão pelo cidadão comum.
Este é um aspeto que parecerá despiciendo, mas assume muito mais importância do que aquela que muitas vezes lhe é atribuída, sobretudo por aqueles que não sabem ou não são capazes de traduzir, embora não tenhamos espaço para aqui desenvolver este assunto. - Repensar a estratégia de combate, ou seja, a metodologia de ataque aos incêndios florestais, designadamente em termos de:
- Objetivos, decorrentes do conceito “combate a incêndios florestais”;
- Prioridades, definidas para cada intervenção, sem obviamente colocar em causa a segurança de:
- a) Combatentes, que devem aproveitar e tirar partido das infraestruturas existentes (estradas e caminhos florestais, faixas de interrupção e de gestão de combustível, …) para nelas ancorarem o combate com segurança, bem como usar, além da água, outros recursos para extinguir os incêndios, tais como máquinas de rasto e contrafogos, executados de forma adequada;
- b) Pessoas (residentes e de passagem), sendo que, como todos sabemos, a melhor forma de as defender será a de combater os incêndios na floresta, apagando o lume antes de ele se aproximar das casas. Quando tal não acontece, por vezes essa aproximação faz-se de forma muito violenta, o que pode ser evitado, se o combate for efetuado longe das casas, minimizando-se o risco e não colocando em perigo pessoas e bens, como, lamentavelmente, passou a ser frequente.
- Criar um enquadramento legal para as grandes áreas queimadas que permita transformá-las em oportunidades para nelas se voltar a ter floresta, preferencialmente de uso múltiplo, onde devem caber as suas várias funções: produção; proteção; conservação; silvopastorícia, caça e pesca; recreio, enquadramento e valorização da paisagem.
Luciano Lourenço Professor Catedrático Jubilado, Universidade de Coimbra
Nota: Artigo publicado originalmente na edição nº 16 da revista My Planet, em novembro de 2025.