Na baía da Trafaria vive uma população de cavalos-marinhos fora do comum. Mas o habitat destes pequenos moradores do estuário do Tejo está degradado. Para os proteger, foram instalados, no fundo do rio, novos abrigos aos quais vão poder chamar casa.
À superfície, a baía da Trafaria, em Almada, é uma paisagem de barcos, pesca e muita atividade humana. Mas, debaixo de água, esconde-se um património natural surpreendente: uma das populações de cavalos-marinhos com maior densidade conhecida na sua área de distribuição, que inclui alguns dos maiores exemplares alguma vez registados.
São duas as espécies que aqui encontraram boas condições para viver: o cavalo-marinho-comum (Hippocampus hippocampus) e o cavalo-marinho-de-focinho-comprido (Hippocampus guttulatus). O problema é que este habitat já conheceu melhores dias. O lixo marinho, a poluição e o ruído subaquático estão entre as ameaças que contribuem para a sua degradação.
Nove abrigos à espera de moradores
Para ajudar a inverter esta situação, a WWF Portugal e a MARDIVE – Associação Ciência e Educação para a Conservação da Biodiversidade Marinha estão a criar refúgios para os cavalos-marinhos da Trafaria. Numa primeira fase, são nove abrigos subaquáticos instalados em três diferentes pontos da baía. Surpreendentemente, as estruturas foram desenvolvidas a partir de carrinhos de supermercado.
A ideia surgiu de uma observação inesperada. Durante os mergulhos na Trafaria, os investigadores da MARDIVE encontraram cavalos-marinhos agarrados a carrinhos de supermercado abandonados no fundo do rio. Os animais encontravam, assim, alternativas à escassez de refúgios naturais. A “dica” dos cavalos-marinhos foi registada e deu frutos.
Os novos abrigos foram construídos a partir de carrinhos de supermercado de estrutura metálica em fim de vida útil: retiraram-se os elementos de plástico e aplicou-se um tratamento para evitar a oxidação e tornar a intervenção mais segura para o ambiente. Foram ainda criados pontos de fixação ao fundo através de estacas e aumentada a superfície interna para favorecer a sua utilização pelos cavalos-marinhos.
A conceção dos abrigos teve por base o conhecimento científico recolhido pela MARDIVE sobre os cavalos-marinhos da margem sul do Tejo. Já a escolha dos locais de instalação contou com a participação dos pescadores locais, que juntaram a experiência de gerações ao trabalho dos investigadores.
O projeto envolveu também a comunidade, através de entrevistas e de uma sessão de esclarecimento, destinada a apresentar a intervenção e recolher contributos. O resultado é uma iniciativa em que a ciência não trabalha sozinha e a população não se limita a assistir.
Da Trafaria para o resto do país
A instalação dos abrigos foi apenas o primeiro passo. Estão previstas futuras ações de limpeza e restauro do habitat, para melhorar as condições de vida dos cavalos-marinhos e proteger a biodiversidade do Estuário do Tejo, o maior de Portugal e uma das zonas húmidas mais importantes da Europa.
Mas a intervenção na Trafaria tem um significado que ultrapassa as águas do Tejo. É aqui que arranca a D-EVOLUÇÃO, uma iniciativa da WWF Portugal que pretende recuperar habitats em todo o país, através de ações concretas de restauro ecológico.
A organização identificou nove locais prioritários para intervir, cada um com os seus desafios e necessidades de recuperação. O trabalho desenvolvido na Trafaria inaugura, assim, um projeto de maior dimensão, que procura devolver aos ecossistemas degradados as condições necessárias à sua recuperação.