Geodiversidade à nossa porta

6 de Outubro 2026

Está no chão que pisamos, na água que bebemos e até nos materiais de que são feitas as nossas casas. A geodiversidade conta a história da Terra, mas também faz parte da nossa vida todos os dias.

Quando pensamos em diversidade na natureza, é provável que nos ocorram primeiro florestas, animais ou plantas. Mas há outra diversidade, muito mais antiga e quase sempre menos visível aos nossos olhos: a das rochas, minerais, fósseis, solos, rios, montanhas, vales e tantas outras formas que compõem a superfície terrestre.

Falamos de geodiversidade, a variedade de elementos e processos geológicos que ajudam a explicar porque é que cada território é como é. E não é preciso procurar exemplos em lugares distantes: basta aprender a olhar para aquilo que nos rodeia.

É esse o desafio lançado este ano pelo Dia Internacional da Geodiversidade, assinalado a 6 de outubro. Sob o tema “Geodiversidade à nossa porta”, a proposta para 2026 é descobrir as marcas da história da Terra nos lugares onde vivemos e perceber como fazem parte do nosso quotidiano.

A biodiversidade começa muito antes da vida

Uma montanha de granito e uma arriba calcária. Um vale escavado por um rio e uma praia coberta de areia. Um solo profundo e fértil e um afloramento onde quase só vemos pedra. Tudo isto são manifestações diferentes da geodiversidade. E todas têm consequências para a vida.

As características das rochas e dos solos, o relevo e a circulação da água ajudam a determinar que habitats se formam num território e que espécies aí encontram condições para viver. É por isso que a geodiversidade é muitas vezes apresentada como uma parceira silenciosa da biodiversidade: por baixo de um ecossistema vivo existe uma base física que contribui para lhe dar forma.

A relação chega à nossa alimentação. É da alteração das rochas, combinada com matéria orgânica e com a ação da água, do clima e dos organismos ao longo do tempo, que se formam os solos onde produzimos grande parte dos alimentos. A água que utilizamos circula à superfície ou infiltra-se através das formações geológicas, podendo ficar armazenada em aquíferos subterrâneos.

A sua presença também se revela nos materiais que usamos. Está na pedra dos edifícios e nos recursos minerais de que dependem a construção, a indústria e muitas das tecnologias que fazem parte do nosso quotidiano.

Um país escrito nas pedras

Portugal tem muitos lugares onde esta história da Terra se deixa ver de forma particularmente clara.

Em Arouca, por exemplo, há 41 geossítios inventariados. Entre eles encontram-se as famosas Pedras Parideiras, um fenómeno geológico raro, e jazidas com fósseis de trilobites, animais marinhos que habitaram os oceanos há centenas de milhões de anos.

No Geopark Naturtejo, as Portas de Ródão são um dos exemplos mais marcantes de como a água e a geologia moldam a paisagem.

Nos Açores, são os vulcões, caldeiras, lagoas, campos de lava e outras formas vulcânicas que contam a história de ilhas nascidas da atividade geológica.

E, desde abril de 2026, há um novo território português na Rede Mundial de Geoparques da UNESCO. O Algarvensis, no Algarve, guarda cerca de 330 milhões de anos de história geológica. Entre os seus elementos mais singulares estão a Mina de Sal-Gema de Loulé – que é o ponto mais profundo de Portugal aberto ao público – e os depósitos deixados pelo tsunami associado ao terramoto de 1755 na zona da Lagoa dos Salgados.

Com esta classificação, Portugal conta atualmente com sete Geoparques Mundiais da UNESCO: Algarvensis, Arouca, Açores, Estrela, Naturtejo, Oeste e Terras de Cavaleiros. Mas o património geológico português não acaba, nem de perto, nas fronteiras dos geoparques. O Inventário Nacional de Património Geológico, disponibilizado pelo Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG), reúne já quase quatro centenas de geossítios espalhados pelo país.

Experimente olhar para o chão

A geodiversidade está também nas paisagens mais familiares e nos lugares onde passamos todos os dias. Pode ser o vale que atravessamos a caminho do trabalho, a escarpa junto à estrada, as pedras de uma praia, o curso de um rio ou, simplesmente, a rocha que fica à mostra num jardim depois de a chuva levar alguma terra.

A pedra das fachadas, das calçadas, dos monumentos ou dos lancis veio de algum lugar e tem uma história geológica. O relevo condicionou a forma como muitas povoações cresceram. Os rios e ribeiras ajudaram a definir caminhos, atividades e ocupações do território.

Reconhecer a geodiversidade começa, por isso, com uma mudança simples de escala e de atenção. Reparar que uma paisagem não é apenas aquilo que cresce e vive sobre ela. Perceber porque existe ali uma colina, de onde veio aquela pedra, porque um rio segue determinado percurso ou o que torna dois solos diferentes ajuda-nos a compreender melhor o território que habitamos e as condições que tornam a vida possível.