Ciência, colaboração e ação: o contributo do RAIZ para a fitossanidade florestal em Portugal

29 de Outubro 2026

Os 30 anos de atividade do Instituto RAIZ constituem, na opinião de Dina Santos, um exemplo de como a ciência aplicada pode gerar impacto efetivo na floresta, na indústria e na sociedade.

A proteção da floresta portuguesa perante a crescente ameaça de pragas e doenças exige uma resposta assente no conhecimento científico, na cooperação institucional e na capacidade de transformar investigação em soluções práticas. Portugal tem vindo a consolidar um modelo de atuação que combina estas três dimensões, permitindo enfrentar desafios complexos que afetam simultaneamente os ecossistemas florestais, a atividade económica e o bem-estar das comunidades.

Neste contexto, o RAIZ – Instituto de Investigação da Floresta e Papel tem desempenhado um papel particularmente relevante. Os seus 30 anos de atividade constituem um exemplo de como a ciência aplicada pode gerar impacto efetivo na floresta, na indústria e na sociedade. Mais do que produzir conhecimento, o RAIZ tem contribuído para a sua transferência para o terreno, promovendo soluções concretas para problemas que exigem uma intervenção célere, coordenada e sustentada.

A experiência demonstra que a proteção fitossanitária da floresta não pode ser assegurada por uma única entidade. A deteção precoce de novos organismos nocivos, a avaliação dos seus impactos, a monitorização de pragas e doenças já presentes no território, a definição de estratégias de controlo e a sua implementação dependem da articulação entre entidades públicas, centros de investigação, empresas, associações do setor e proprietários florestais. É nesta lógica de colaboração que se enquadra o Grupo de Acompanhamento de Sanidade Florestal (GASF), criado em 2014 no âmbito da implementação do Plano Operacional de Sanidade Florestal (POSF) e no qual o RAIZ participa desde o início.

O GASF constitui um exemplo de boa governação colaborativa, reunindo diferentes entidades em torno de um objetivo comum: assegurar uma resposta coerente, coordenada e baseada no conhecimento científico aos desafios da fitossanidade florestal, contribuindo para reforçar a capacidade nacional de prevenção e controlo de pragas e doenças florestais.

O RAIZ participa ativamente no GASF, colocando ao serviço desta estrutura a sua experiência científica e técnica. Salienta-se o seu contributo no Grupo de Trabalho do Eucaliptal, onde tem colaborado na execução do Plano de Controlo das Pragas que afetam a copa dos eucaliptos. O trabalho desenvolvido tem incidido na identificação e avaliação de inimigos naturais com potencial para serem utilizados como agentes de controlo biológico, uma abordagem que procura soluções sustentáveis e ambientalmente responsáveis para a gestão de organismos nocivos.

O RAIZ tem igualmente participado na operacionalização de medidas de controlo biológico, nomeadamente através da produção de parasitoides em condições controladas, da sua libertação em campo e da monitorização das populações estabelecidas. Este percurso evidencia uma das características distintivas da ciência aplicada: a capacidade de percorrer todo o ciclo, desde a geração de conhecimento até à sua implementação e avaliação no terreno.

Outro exemplo relevante tem sido o envolvimento do RAIZ no controlo biológico de plantas invasoras lenhosas. Enquanto coordenador do grupo de trabalho dedicado a esta matéria, no âmbito do GASF, o instituto tem contribuído para a implementação do Plano Nacional de Controlo Biológico das Plantas Invasoras Lenhosas. Trata-se de um desafio particularmente exigente, dada a capacidade de expansão destas espécies e os impactos ecológicos e económicos que provocam. Mais uma vez, a resposta passa pela conjugação entre conhecimento científico, coordenação institucional e intervenção prática.

Os 30 anos do RAIZ representam, por isso, muito mais do que um marco institucional. Representam três décadas de investimento contínuo na produção de conhecimento útil, na construção de pontes entre ciência e prática e na promoção de soluções que beneficiam simultaneamente a floresta, a economia e a sociedade. O seu percurso demonstra que os desafios da fitossanidade florestal exigem respostas coletivas e que a colaboração entre entidades públicas, científicas e empresariais não é apenas desejável: é uma condição indispensável para garantir a sustentabilidade e a resiliência das florestas portuguesas.

Num setor onde os resultados nem sempre são imediatos, o legado do RAIZ confirma que a ciência aplicada, quando desenvolvida em estreita articulação com os diferentes atores do território, constitui uma das ferramentas mais eficazes para proteger o património florestal e preparar o futuro.

 

Dina Santos, Chefe de Divisão de Fitossanidade Florestal, Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, IP