Alterações climáticas: nem tudo está decidido

2 de Novembro 2026

Há consequências do aquecimento global que já não podem ser evitadas. Mas a dimensão dos danos futuros continua a depender das decisões que tomarmos hoje. Um novo relatório científico mostra o que está em risco e aponta caminhos para limitar os impactos das alterações climáticas.

 

O planeta está a aquecer, os oceanos acumulam cada vez mais calor e o nível do mar continua a subir. Algumas destas transformações terão consequências durante séculos, mesmo que consigamos reduzir a temperatura global. Mas isso não significa que o futuro esteja decidido.

Esta é a principal mensagem do relatório “10 Novas Descobertas da Ciência do Clima 2026/2027”, publicado no passado dia 6 de outubro. Elaborado por mais de 70 investigadores, de vários países, o documento reúne dez conclusões da investigação climática recente e identifica áreas em que a ação política pode fazer a diferença.

O alerta mantém-se: ultrapassar o limiar de aquecimento de 1,5 °C, estabelecido pelo Acordo de Paris, aumenta o risco de alterações irreversíveis. E cada décima de grau adicional agrava esse risco.

 

Impactos que já não podemos evitar

Os oceanos são um dos exemplos mais evidentes. Ao absorverem grande parte do excesso de calor provocado pelas emissões de gases com efeito de estufa, continuam a aquecer, num processo com efeitos já visíveis e que irão prolongar-se durante décadas.

Também a subida do nível do mar, impulsionada pelo degelo e pela expansão térmica da água, é parcialmente inevitável devido às emissões acumuladas. Contudo, a dimensão futura da subida dependerá da rapidez com que reduzirmos essas emissões.

A disponibilidade de água doce constitui outra preocupação. As alterações climáticas, combinadas com o aumento do consumo, estão a acelerar a perda de reservas de água em várias regiões continentais, ameaçando ecossistemas, atividades agrícolas e comunidades.

 

As prioridades para a ação climática

Apesar destes sinais, o relatório identifica oportunidades concretas para limitar os danos e construir sociedades mais resilientes.

Uma delas está nos sistemas alimentares. A adoção de dietas com maior presença de alimentos de origem vegetal, acompanhada de mudanças na produção agrícola, pode reduzir emissões e beneficiar simultaneamente a biodiversidade e a saúde humana.

Outra passa por reconhecer o verdadeiro custo das emissões de carbono. Segundo os investigadores, o chamado “custo social do carbono”, que traduz em termos económicos os danos provocados por cada tonelada adicional de CO₂ emitida, poderá ser até quatro vezes superior às estimativas anteriores. Esta conclusão reforça a importância de considerar esses impactos nas decisões políticas.

A ciência está também a desenvolver ferramentas que permitem relacionar emissões de determinados agentes com impactos climáticos específicos. Estes avanços poderão contribuir para uma maior responsabilização, apoiar processos judiciais e fundamentar discussões sobre perdas e danos associados às alterações climáticas.

No plano internacional, a cooperação entre países pode acelerar a descarbonização industrial, desde que as medidas comerciais não agravem as desigualdades entre economias desenvolvidas e países com menos recursos.

O relatório chama ainda a atenção para dois obstáculos: a desinformação e as estratégias que procuram atrasar as políticas climáticas, incluindo o greenwashing e as tensões geopolíticas, que podem comprometer uma transição energética justa.

 

O peso das decisões de hoje

As conclusões científicas deixam pouco espaço para dúvidas sobre a urgência. Mas também mostram que reduzir rapidamente as emissões, proteger os recursos naturais, transformar os sistemas alimentares e reforçar a cooperação internacional são caminhos que podem evitar consequências mais graves.

A janela de ação está a estreitar-se, mas permanece aberta. E a diferença entre um planeta que aquece 1,5 °C, 2 °C ou mais não é apenas uma questão de números: traduz-se em impactos muito diferentes sobre a natureza, a economia e a vida de milhões de pessoas.