“A sociedade precisa reconhecer a floresta como pilar do país”

7 de Maio 2026

Luís Sarabando, da Associação Florestal do Baixo Vouga, responde a três perguntas sobre a vulnerabilidade da floresta portuguesa face aos incêndios e as estratégias para a tornar mais resiliente.

Quais os maiores fatores de risco estrutural no território em Portugal?

Na minha opinião, Portugal enfrenta três desafios centrais que fragilizam estruturalmente o território.
O primeiro é a ausência de um verdadeiro ordenamento, capaz de garantir paisagens compartimentadas, diversificadas e resilientes, com manchas florestais contínuas de dimensão máxima de 5 000 hectares. Essa compartimentação pode ser alcançada através da introdução de pastagens ou outras ocupações agrícolas, da recuperação da estrutura ecológica nos fundos de vale, bem como da criação de estruturas naturais, como massas de água, ou artificiais, como faixas de gestão de combustíveis e redes de comunicação.

O segundo risco resulta dos baixos índices de gestão do território, consequência da reduzida rentabilidade das atividades rurais e do consequente êxodo populacional, que tem deixado vastas áreas ao abandono.

Por fim, a realidade do minifúndio — ou pequena propriedade — que se revela, no atual contexto socioeconómico, pouco compatível com uma gestão eficiente dos espaços florestais.

Que prioridade absoluta devia ser assumida nos próximos cinco anos?

A prioridade absoluta deve ser o reconhecimento público, claro e inequívoco de que a floresta e o território rural são pilares estruturantes da segurança, da economia e da coesão do país. Apenas políticas públicas consistentes, duradouras e sustentadas por um pacote financeiro próprio — que garanta previsibilidade no médio prazo e não apenas dependente da volatilidade dos fundos externos — poderão criar as bases para uma verdadeira transformação da floresta e território.

Reforço como medidas essenciais: compartimentar o território, através de soluções naturais e artificiais que quebrem a continuidade do risco; organizar a propriedade em modelos de maior escala, capazes de assegurar uma gestão profissional e eficiente; e remunerar os serviços de ecossistema, reconhecendo o valor ambiental e social que os gestores do território prestam de forma “benemérita” à sociedade, a única maneira de tornar o investimento florestal economicamente viável.

Para concretizar estas medidas, é ainda fundamental recuperar a autoridade do Estado, de forma a tornar possível a execução de ações de interesse coletivo, nomeadamente a resolução da titularidade dos prédios rústicos e a capacidade de decisão sobre a sua gestão. Sendo uma ação imprescindível, isto deve, logicamente, acontecer com total respeito e valorização da propriedade privada e dos seus proprietários, à semelhança do que já acontece em grandes infraestruturas e obras de interesse público.

Como tornar viável a gestão em territórios fragmentados?

A viabilidade da gestão em territórios fragmentados exige que os proprietários retirem rendimento da floresta. Isso passa por introduzir soluções inovadoras e colaborativas, assentes em modelos agregados de gestão que aumentem a dimensão útil das parcelas, permitam a mecanização, reduzam custos e garantam ganhos de escala, sobretudo nas florestas produtivas de pinheiro e eucalipto. Mas também as florestas de proteção ou conservação necessitam de escala para aceder a apoios públicos ou integrar mercados emergentes, como os serviços de ecossistema ou o sequestro de carbono.

A Associação Florestal do Baixo Vouga tem demonstrado, através das Áreas Florestais Agrupadas, que esta via é exequível: cada proprietário participa proporcionalmente à sua área e partilha investimentos e benefícios. A experiência mostra que este é o caminho, apesar das dificuldades culturais e da morosidade dos processos.

Acreditamos que com apoio institucional — jurídico, técnico e financeiro — será possível consolidar estes modelos, tornando a floresta mais equilibrada, valorizada e protegida. Até ao final de 2025, estarão em terreno 11 projetos, abrangendo 180 hectares e envolvendo cerca de 150 proprietários e 150 prédios rústicos.

Para que estes exemplos, e outros existentes noutras geografias, sejam implementados, é fundamental que o país e os agentes económicos reconheçam e valorizem o papel das Organizações de Produtores Florestais, apoiando-as no trabalho de proximidade com as comunidades e território. A adesão dos proprietários requer mediação, acompanhamento técnico e, sobretudo, confiança — construída com tempo, proximidade e linguagem acessível.

Por Luís Sarabando, Diretor Técnico da Associação Florestal do Baixo Vouga

Nota: Este artigo foi publicado originalmente na edição nº 16 da revista My Planet, em novembro de 2025.