A frequência e a intensidade dos incêndios rurais resultam, explica Luís Mira, de múltiplos fatores, nomeadamente do abandono e da consequente falta de gestão ativa dos territórios rurais. Prevenir incêndios implica uma visão integrada de gestão do espaço rural, articulando agricultura, floresta e ordenamento territorial.

A prevenção dos incêndios rurais constitui um dos maiores desafios nacionais, europeus e em particular para os produtores agrícolas e florestais, como ficou demonstrado neste verão de 2025.
Em resultado das diversas campanhas de sensibilização, desde 2018 tem-se verificado uma redução do número de ignições, em particular quando comparado com o período 2001-2017, sobretudo por alterações de comportamento no uso do fogo. No entanto, enfrentamos neste momento o paradoxo do fogo, ou seja, devido à ausência de gestão ativa da vegetação acumulámos combustível que alimenta incêndios mais rápidos, mais severos e mais destrutivos.
Por outro lado, desde os trágicos incêndios de 2017, o conhecimento técnico e científico sobre a prevenção e o combate tem aumentado de forma consistente. Precisamos agora de dar o passo seguinte, transferindo este conhecimento para os diversos atores, aumentando ainda mais a profissionalização do combate.
Ao contrário do que é muitas vezes percecionado pela opinião pública, não são os povoamentos florestais de eucalipto que constituem a maior proporção de área ardida. Com efeito, de acordo com os dados divulgados, no passado mês de agosto, pelo Instituto Superior de Agronomia, relativos a 72 incêndios com área superior a 100 ha, os povoamentos de eucalipto representaram menos de 20% da área de floresta queimada, abaixo da proporção destas espécies no universo da floresta nacional (segundo o último Inventário Florestal Nacional, os povoamentos de eucalipto representam 26% das espécies florestais).
A frequência e a intensidade dos incêndios rurais resultam de múltiplos fatores, nomeadamente do abandono e da consequente falta de gestão ativa dos territórios rurais. Prevenir incêndios implica, por isso, uma visão integrada de gestão do espaço rural, sendo, assim, urgente promover uma gestão (florestal) mais racional, criando condições de descontinuidade de carga combustível, intercalando espaços florestais com outros usos.
A agricultura, quando ativa, funciona como barreira natural contra a propagação do fogo. Campos cultivados, pastagens e diversidade de culturas agrícolas interrompem a continuidade do coberto florestal, reduzindo a carga de combustível. A pecuária extensiva, por exemplo, contribui eficazmente para a gestão das áreas de matos, enquanto culturas de regadio criam zonas húmidas de contenção. Assim, apoiar agricultores traduz-se não só numa dinamização da economia local, mas também num investimento na resiliência do território.
A atividade florestal tem de ser encarada como uma atividade económica ou ninguém terá interesse em investir nestes territórios, com consequências não só económicas, mas também ambientais e sociais. Uma floresta que não gera rendimento para quem a detém está condenada ao abandono!
Os múltiplos programas de apoio aos produtores florestais da the Navigator Company, como o programa Premium, de aconselhamento, ou o Tec4Forest, de transferência de conhecimento e partilha de informação, contribuem para melhorar a gestão florestal, a produtividade e consequentemente o rendimento dos produtores.
No entanto, sobretudo num contexto de alterações climáticas, em que se prevê a ocorrência de mais incêndios e com maior severidade, este esforço do setor privado é notável, mas não é suficiente para termos um país mais preparado e mais resiliente aos incêndios rurais, sendo necessário um esforço de toda a sociedade, nomeadamente do setor público. Com efeito, a prevenção, para que se torne eficaz, exige parcerias entre agricultores, silvicultores, autarquias, Estado, universidades e cidadãos.
Precisamos também de criar economias de escala, promovendo a partilha de recursos técnicos e materiais no âmbito da gestão e vigilância dos territórios rurais, desempenhando as organizações de agricultores e de produtores florestais um papel fundamental neste âmbito.
A prevenção de incêndios não pode ser entendida apenas como combate, mas sim como gestão integrada do espaço rural. A articulação entre agricultura, floresta e ordenamento territorial cria um mundo rural mais resiliente, capaz de reduzir a intensidade dos fogos, protegendo pessoas, património e ecossistemas. Transformar o espaço rural num território vivo, produtivo e rentável é a melhor estratégia na prevenção dos incêndios rurais.
Por Luís Mira, Secretário-geral da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP)
Nota: Este artigo foi publicado originalmente na edição nº 16 da revista My Planet, em novembro de 2025.