Gary Morgan, Presidente do Comité Consultivo Ministerial do Governo de Vitória (Austrália), é um dos grandes especialistas mundiais na gestão e comportamento dos incêndios florestais. No momento de fazer um retrato do fogo, nomeadamente as ocorrências de grande intensidade e dimensão, sublinha que só um esforço coletivo da sociedade poderá alcançar sucesso na sua mitigação. E avisa: o clima não explica tudo.

Nos últimos anos, temos assistido a incêndios rurais e florestais cada vez mais intensos, rápidos e imprevisíveis. Na sua opinião, que fatores estão realmente a alterar o comportamento do fogo?
Muitas pessoas referem as alterações climáticas e a imprevisibilidade dos incêndios florestais como os motivos subjacentes aos grandes incêndios florestais catastróficos. Estas são meras desculpas, não as causas reais.
Existem três elementos essenciais que influenciam a intensidade de um incêndio florestal e a rapidez com que este se propaga no terreno — a quantidade de combustível disponível, a meteorologia associada ao fogo e a topografia. As alterações climáticas estão a afetar a meteorologia associada ao fogo. Em algumas regiões, as alterações climáticas são responsáveis por uma maior precipitação. Noutras, criam zonas mais secas e ventos com maior intensidade. A mitigação destas alterações climáticas exige atenção a nível global. A topografia não pode ser mudada. O único elemento que, a curto prazo, pode ser alterado por forma a reduzir o comportamento do fogo é a quantidade de combustível disponível para arder.
Nas últimas décadas, a investigação sobre o fogo e a meteorologia associada permitiu alcançar enormes avanços no conhecimento relativamente aos incêndios florestais. Atualmente, sabemos identificar os dias que apresentam um perigo extremo de incêndio. Quando um incêndio deflagra, dispomos de modelos de previsão que indicam qual será o padrão de propagação mais provável em determinado território.
Se Portugal será ou não afetado por incêndios mais intensos e que se propagam mais rapidamente está dependente de as entidades responsáveis recorrerem ao conhecimento científico mais atualizado, a peritos especializados em ordenamento e a analistas de comportamento do fogo com competências que lhes permitam aplicar o conhecimento e modelos disponíveis, bem como de os bombeiros atuarem em conformidade com o sistema de gestão integrada de fogos.
Muitos especialistas referem que existe uma alteração no “regime de fogo”. O que significa exatamente este conceito e como se aplica a países como Portugal?
Em territórios onde o fogo é endémico, como é o caso de Portugal, observa-se um padrão na frequência dos incêndios, na sua intensidade e no período do ano em que ocorrem. A este padrão chamamos de regime de fogo. Os regimes naturais variam em função do tipo de ecossistema, do clima e da topografia. Os humanos podem intervir neste regime de fogo, prevenindo a propagação ou alterando a sua frequência, para aumentar ou reduzir a intensidade dos incêndios.
O foco na supressão, ao tentar evitar todos os fogos (controlados ou não), reduz a biodiversidade das espécies de flora adaptadas ao fogo, que necessitam dele para se regenerarem. A ausência prolongada do fogo traduz-se numa acumulação de combustíveis que, quando deflagram perante condições de seca, ardem com maior intensidade, provocando mais danos.
O comportamento do fogo segue a mesma física de uma fogueira. Quanto mais combustível é adicionado, mais alta é a chama e maior o calor gerado. Da mesma forma, um incêndio florestal que deflagra numa área com uma grande quantidade de material seco produzirá chamas mais altas e mais intensas. Consequentemente, a sua extinção torna-se mais difícil.
Na sua opinião, quais são os principais fatores ecológicos, económicos e sociais que contribuem para esta nova realidade?
A nível global, muitos países têm dado prioridade ao combate aos incêndios florestais em detrimento das ações de mitigação. Como resultado, o número e a dimensão dos incêndios têm aumentado.
Muitas vezes, as alterações climáticas têm sido usadas para justificar o aumento das áreas ardidas e dos custos de combate. Essa não foi, no entanto, a explicação aceite pela Comissão Técnica Independente de 2017 em Portugal. Existem outros fatores em causa que influenciam este problema complexo. Se o Governo português prosseguir a difícil tarefa de melhorar a gestão do território e dos incêndios florestais, enfrentando as questões de fundo que estão na origem da escalada de custos, então Portugal será amplamente recompensado. Com o tempo, outros países irão seguir a abordagem portuguesa na gestão dos incêndios florestais.
Estamos perante uma questão regional ou trata-se de uma preocupação global?
Portugal é um país, tal como a Austrália, onde o fogo é endémico na sua paisagem. Nenhum destes países pode esperar eliminar o fogo do ambiente. Aliás, existem ecossistemas nos quais a perturbação causada pelo fogo é fundamental para a sua saúde. Temos de aprender a viver com o fogo e a geri-lo.
De uma forma incorreta, muitos interpretam o aumento da área ardida como sendo um problema exclusivo do combate aos incêndios. Poderá sê-lo quando as forças de combate não seguem o sistema de gestão integrada. Mas, na maioria dos casos, é um problema associado à gestão do território. Os governos têm de decidir como querem que seja o coberto vegetal no futuro e, a partir daí, gerir os regimes de fogo de modo a evitar que os incêndios atinjam níveis catastróficos ou se tornem mais frequentes.
Em que medida fatores como a globalização, a desertificação do interior e a alteração do uso do solo aumentam a vulnerabilidade perante os incêndios?
Todos esses fatores sofreram alterações ao longo do milénio. Todos influenciam a quantidade, a frequência e a intensidade dos incêndios, controlados ou não. A vulnerabilidade perante o fogo depende das medidas implementadas com vista a manter os combustíveis em níveis que não causem impactos negativos. Esta responsabilidade cabe aos gestores do território, aos proprietários e aos governos.
Com base na sua experiência, que políticas públicas têm demonstrado maior eficácia na mitigação de incêndios catastróficos? E quais os erros mais comuns repetidos pelos países?
As questões relacionadas com a propriedade da terra em Portugal evidenciam a importância de existir um apoio legislativo e governamental coordenado e abrangente, assente numa visão claramente definida e amplamente aceite, bem como em objetivos concretos, para o conjunto dos serviços de ecossistema que o ambiente pode fornecer, incluindo alimentação, biodiversidade, madeira, água, comércio e segurança das pessoas.
Na ausência de uma declaração clara por parte do governo sobre qual a visão do país e os resultados pretendidos para o coberto vegetal da paisagem no seu conjunto (abrangendo diferentes regimes de propriedade), a gestão dos incêndios florestais carece de consistência e eficácia. Infelizmente, este é um problema partilhado com a maioria dos países propensos a incêndios.
Para uma gestão responsável, os agentes florestais precisam de clarificar o estado final desejado para as terras que administram, juntamente com o correspondente nível de redução do risco de incêndio pretendido.
Como vê o papel da ciência e da cooperação internacional na resposta a este novo regime de fogo?
A ciência e a cooperação internacional são vitais numa altura em que o mundo parece estar a entrar numa fase marcada por regimes de fogo com maior frequência de incêndios intensos. Já foi realizada muita investigação, mas é necessária uma maior comunicação para partilhar o conhecimento obtido.
Os silos existentes entre e dentro das entidades impedem a transferência bem-sucedida e alargada de conhecimento e de entendimento para outros cientistas, técnicos de campo e gestores.
O ForestWISE pode constituir uma boa base para uma transferência eficaz de conhecimento científico sobre fogo e para a investigação e gestão colaborativa nesta área.
Nota: Entrevista publicada originalmente na edição nº 16 da revista My Planet, em novembro de 2025 (conteúdo editado).