Como regenerar um território em cinzas

1 de Outubro 2026

Quando o fogo se extingue, começa um outro trabalho: estabilizar solos, proteger linhas de água, controlar invasoras e decidir onde vale a pena intervir. Especialistas defendem que os incêndios têm potencial para ser momentos de transformação — a gestão pós-fogo pode ditar se o território se torna mais resiliente ou se regressa ao abandono.

Quando o fogo passa, deixa atrás de si um território marcado a negro. A paisagem transforma-se em cinza e silêncio, mas o trabalho não acaba com o fim das chamas. Na verdade, é depois do incêndio que se colocam as questões mais complexas: o que fazer com o solo exposto, com as linhas de água em risco e com a biodiversidade.

Para Teresa Maria Gamito, presidente da direção da MONTIS – Associação para a Gestão e Conservação da Natureza, e especialista em ordenamento do território, a mensagem é clara: “O fogo faz parte da realidade. Na MONTIS não trabalhamos para que não haja fogos, trabalhamos para criar resiliência”.

A MONTIS gere 313 hectares de terreno, correspondentes a 38 propriedades, dos quais apenas 17 ha pertencem diretamente à associação; a restante área resulta de protocolos com baldios, associações e proprietários privados. Teresa Gamito sublinha que um dos principais problemas da floresta nacional é o abandono e a invasão de acácias. Acrescenta que a fragmentação da propriedade dificulta a gestão e complica a aquisição de terrenos que poderiam beneficiar de uma abordagem mais sustentável.

O trabalho da associação parte da convicção de que os incêndios vão acontecer. O objetivo não é eliminá-los, mas reduzir o impacto que provocam. “Achamos sempre que vai haver fogo. Tentamos é que ele tenha o mínimo impacto possível e tentamos tornar as nossas áreas mais resilientes”, sublinha Teresa Gamito.

Essa resiliência constrói-se no terreno: criar clareiras, abrir mosaicos, reduzir combustível — tudo sem destruir a biodiversidade. “Trabalhamos com voluntários e sapadores. Vamos limpando, mas sempre com cuidado para não prejudicar a biodiversidade. Fugimos da lógica de plantar de imediato, após o incêndio. Aguardamos pela primavera, para avaliar o que sobreviveu”, acrescenta. 


O que fazer logo a seguir

Depois do incêndio, a estabilização de emergência, sobretudo em zonas inclinadas e junto a linhas de água, deve ser uma prioridade. “As chuvas logo após um incêndio podem afetar as áreas ardidas. A água arrasta as cinzas, mas, sobretudo, arrasta o solo, o que é grave.” Esse arrastamento tem duas consequências: a perda de solo fértil e a poluição das linhas de água que possam passar junto às áreas ardidas, pormenoriza a presidente da MONTIS. Teresa Gamito destaca ainda que “a cinza pode também ter um efeito benéfico como matéria orgânica”. E dá o exemplo de uma área de ação da associação, em Vieiro, que ardeu no verão. “No ano seguinte, em fevereiro, as plantas que julgávamos que tinham ardido cresciam lindíssimas. A cinza, sendo matéria orgânica, também ajudou neste reflorescimento. Se o solo não ficar carbonizado, o facto de ter ardido não tem de ser totalmente prejudicial”, conclui.

 

A importância de decidir bem

Para Luís Lopes, vice-presidente da direção da MONTIS e investigador ligado à área da engenharia florestal, o trabalho pós-fogo exige leitura atenta e decisões diferenciadas. “É importante conhecer o que existia antes do fogo, depois fazer uma leitura do que foi o fogo, e, com esta informação, prever o que poderá ser a regeneração desta área. Dificilmente toda a área necessita de intervenção. Algumas recuperam naturalmente.”

O acompanhamento da MONTIS faz-se em várias fases. Logo após o incêndio, há que atuar rapidamente: estabilização de emergência antes das chuvas de outono, controlo de invasoras enquanto são mais fáceis de arrancar, visitas regulares para monitorizar o que acontece. “Não existe um calendário específico. Tentamos estar muito presentes no terreno e, assim que identificamos necessidades, intervimos”, explica Luís Lopes.

Na primavera, já é possível identificar o que está a regenerar naturalmente. No verão seguinte, iniciam-se os trabalhos de apoio às plantas que se afirmaram e define-se onde abrir clareiras ou introduzir espécies. “Temos um intervalo de cinco a seis anos em que o risco de incêndio é mais baixo. É nessa janela que podemos introduzir/reforçar espécies que nos interessam e decidir o futuro da área”, acrescenta.

 

Impacto do incêndio no solo

Para António Bento Gonçalves, professor do Departamento de Geografia da Universidade do Minho, a análise pós-incêndio começa por reconhecer que não há um só tipo de fogo. “Diferentes incêndios vão causar impactos diferentes no solo. O mesmo tipo de incêndio em solos diferentes pode ter efeitos diferentes. Depende de vários fatores, como, por exemplo, a intensidade. Se o incêndio passar rapidamente, vai ter um determinado efeito. Se for mais lento, a permanência do calor no solo vai ter efeitos diferentes.”

O relevo, a vegetação e a composição do solo condicionam os impactos. Ainda assim, há tendências que se repetem. “Poder-se-á generalizar que os solos ficam mais alcalinos após um incêndio, o que desde logo condiciona algumas espécies florestais. Muitas estão adaptadas a solos ligeiramente ácidos, não a alcalinos.”

A perda de nutrientes é igualmente um desafio depois do fogo: “Em determinadas condições, o nitrogénio pode ser volatilizado e, portanto, os solos também ficam mais pobres em alguns macronutrientes. Destaco sobretudo o nitrogénio que é um nutriente particularmente importante para o desenvolvimento das plantas”, explica.

Mas todos estes desafios estão também relacionados com as condições do terreno e as intervenções que nele houve a haverá após o incêndio. “Terrenos mais planos não terão tanto risco de escorrência com as primeiras chuvas e, por isso, a perda de nutrientes será menor. Contudo, o cenário já é diferente em terrenos mais declivosos. Nestes casos, o processo da escorrência está facilitado. Normalmente, no início do outono temos chuvas concentradas e isso pode levar a um grande empobrecimento dos solos. Recordo que em boa parte das áreas montanhosas do país temos solos muito estreitos, camadas muito finas de solo, com dois, três, cinco centímetros, nos melhores cenários. Esta escorrência após os incêndios pode significar um maior empobrecimento dos nossos solos, o que se reflete na possibilidade de termos uma floresta de produção rentável”, pormenoriza António Bento Gonçalves.

Deste modo, depois de um incêndio, existem medidas de emergência fundamentais. “Sobretudo em áreas declivosas, é preciso proteger os solos para evitar a sua perda química e física, por arrastamento de material. Usando os ramos e os troncos queimados, podemos criar pequenas barreiras ao longo das curvas de nível. Isso reduz a velocidade da água e permite conservar os materiais no local”, defende o professor da Universidade do Minho. Outra possibilidade é corrigir a alteração química do solo. “Como os solos tendem a ficar alcalinos, poderemos semear espécies que possam acidificar ligeiramente o solo. Isso ajudaria a tornar as povoações mais rentáveis a médio prazo.”

António Bento Gonçalves ressalva ainda que o fogo pode ser destruição ou oportunidade, consoante a forma como é gerido. A prática ancestral de queimadas controladas para regenerar pastagens é um exemplo positivo. “Se o fogo for bem utilizado, em condições certas e meteorologia adequada, promove uma mineralização rápida que beneficia os solos. É por isso que, depois das primeiras chuvadas, surgem pastos verdejantes. O problema é quando o fogo não é frio, mas quente e prolongado”, detalha.

 

Nota: Artigo publicado originalmente na edição nº 16 da revista My Planet, em novembro de 2025.